Trocas literárias: a resposta

Texto escrito pela ”menina bonita” em resposta ao post: “Pauta do dia: o samba e o beijo”.

Ainda com um pouco de pressa (que droga, pára que quero descer!) vou comentar, porque não vou conseguir dormir sem fazer isso, algumas coisas reverberaram demais…

Primeiramente, essa questão da pressa.  A “pressa” tá quase virando nome próprio de alguém que a gente deveria correr: deveríamos ter pressa pra fugir da Pressa! Quanta ironia… mas é verdade… Hoje, aniversário da Aninha, paro e penso o que quero desejar a ela. O que me vem na cabeça e no coração? Que ela não perca a capacidade de ver as borboletas que cruzam seu caminho todos os dias… Eu desejei isso, mas me pergunto: com essa pressa toda, eu vejo? E é por isso (para começar) que mesmo com pressa eu fiz questão de parar (e leve o tempo que levar) pra vir te responder.

Então, por agora, fiquemos sem pressa. Mas é tão difícil… Como escrito por você, a gente quer, mas tá acelerado demais para conseguir desacelerar assim, só porque quer. Outra dura verdade: querer nem sempre é o bastante. Seu texto me levou a pensar hoje de manhã: quantas pessoas não fazem o que querem? Daí eu viajo… E viajando, percebo que talvez elas nem saibam o que querem. Não sabem o que querer. Num mundo de acelerações, fica difícil parar para saber de si, do que te corresponde.

A que ponto chegamos? Somos mais produtos do que alma: desejamos consumir, mas nos esquecemos de consumir a nós mesmos. Eu me consumo. Não é sempre, mas quando me lembro, me consumo e me saboreio. E aí sei o que me corresponde, aí sei para onde quero ir (não sei se devo, mas sei que quero).

Você quis ir pro samba. Você parou, se saboreou, e quis arrastar o pé no chão do Cartola. Saravá! Não corramos de nós mesmos… Eu também quero amenidades, mas quando penso em efemeridades, fujo de mim. Não sou do passageiro, sou do que marca e fica. Ter pressa de si é uma merda. Ser uma ‘marionete do cotidiano’ é uma merda. Viver a mercê do tempo é uma merda. Ou não. A gente tem pressa porque esquece que o tempo é nosso amigo. O tempo cura, o tempo constrói e o tempo não volta, mas pra quê voltar, se foi bem vivido? O tempo nos permite respirar, nós é que nos esquecemos disso…

Engraçado é que, quando a vida nos força a parar (seja para esperar o dentista ou porque nos adoecemos e não podemos continuar no ritmo de antes), achamos ruim. Somos obrigados a parar e ainda achamos ruim. Só eu acho isso irônico? A gente tem pressa, reclama da pressa, precisa parar, e quando é forçado a parar (mesmo que por 20 minutos), reclama! Ainda bem que desse mal eu não sofro. Ah, como é bom quando a vida me força a parar, e eu vejo que as borboletas ainda existem…

Como é bom quando o sinal vermelho me faz poder parar de prestar atenção no trânsito, e olhar pras árvores, pras vidas que passam na minha frente… Quer presente maior que esse? Se a gente não consegue parar intencionalmente, a vida nos pára: como ela é sábia! Ok, o tempo não pára, mas quem foi que disse que ele precisava parar? Quem precisa parar somos nós. Mas é um parar pra ver a magia da vida, não é um parar acomodado, que isso fique claro…

Opa, me peguei fugindo do assunto do seu texto! Mas pra ser sincera, se me derem inspiração e alguém pra me ouvir, eu vou… Então agora, com mais foco, eu volto. Cheguemos ao Cartola, né?… Bom, o Cartola não era a minha opção pra noite, mas tudo mudou quando a Aninha ganhou a cortesia.

Eu não acredito em coincidências, mas em providências. Então, samba no meu caminho! E também, confesso, não sei recusar um samba…

Um samba de Noel, como não topar? Com Noel aos ouvidos, sentir deixa de ser impossível pra qualquer um, inclusive pro João naquela noite de apressividades (sim, adoro neologismos e me permito – porque não?).

A “menina bonita” estava nos olhos de quem via. E ela viu alguém especialmente charmoso piscando pra ela. Como não sorrir? Num mundo de efemeridades que não a correspondem, porque não tentar diminuir a efemeridade daquele encontro de olhares? Com dois copos na mão, não dava pra entender o que ele queria quando os roubou dela e virou as costas. E eis que ele volta, e num gesto firme a puxa pra um rodopio. Estava feito o desastre: quem diria que ela não sabia dançar? Mas as cervejas fizeram as cabeças não ligarem pra isso. Nem as cabeças, nem os pés. E os corpos se encontraram numa sintonia que é incomum. Talvez ela também estivesse intencionalmente distraída para afetividades naquele momento.

Samba na cabeça e corpos se encontrando, mais nada: a delícia de se ver livre de seus pensamentos a inundou. A barba roçando no pescoço dela fazia com que Noel fosse atendido em seu pedido mais intenso: não deixava o samba morrer pra eles. Entre os rodopios que ele a conduzia, ela não conseguia pensar mais, estava entregue.

Entregue ao samba, entregue à vida. Já não funcionava com pressa, o tempo se mostrou, enfim, amigo. As falas ao pé do ouvido não ficaram por aí: entraram também na cabeça, no corpo, na alma. Os sorrisos se encontraram primeiro, e depois as bocas… Ela flutuou, mas não se perdeu porque as mãos não se soltavam mais.

Permitiram-se, sem pressa e sem medo: “a magia estava salva”. E foi essa mesma magia que no domingo à tarde, vinha toda hora como quem não queria nada, e arrancava da face dela sorrisos gostosos de uma lembrança encantadora.

Assinado: Aquela que você chama de: “menina bonita”.

Dança comigo outra uma vez?

Primeiro ato: cólicas mentais

Levantou-se rápido e disposto naquela manhã, antes do despertador do celular tocar. Pulou da cama, na verdade. Dobrou o edredom, guardou o travesseiro e desceu para lavar a louça suja da noite anterior. Foi tomar uma ducha, bebeu um nescafé rápido, mordiscou um pedacinho de queijo, e foi para a aula sentindo-se bem. No entanto, um sentimento estranho o dominava.

Não sabia ao certo o porquê em estar se sentindo diferente. Mas estava gostando do que sentia. Um pouco mais sereno e menos automático, quem sabe. Isso lhe causava certa estranheza e ao mesmo tempo o fazia bem. Contudo, ainda assim, estava como de costume: ansioso. Olhava para o relógio de tempos em tempos e a aula teimava em não acabar. As horas teimosas dançavam a melodia de um tic-tac que ele considerava subnutrido e apático.

Enquanto seus colegas de sala de aula queimavam neurônios num debate acalorado e produtivo, sua mente flutuava além daquelas efervescentes análises de filmes do Kubrick que o professor propunha. “Hoje eu tô estranho. Nossa! Mas, não quero saber o porquê não. Prefiro continuar sem pensar demais. Não me interessa (hoje) ficar pensando nas coisas que tem me acontecido, no que quero e preciso resolver. Vou deixar acontecer. Simples assim. Correr atrás e aguardar”. Pensava resoluto.

Segundo ato: na lanchonete

Depois da aula que pareceu um século, enfim, veio o intervalo. Hora de descer as escadas da faculdade e, dar um pulinho na cantina para o habitual café fresquinho e cigarro. Chegando ao pátio, lanchonete lotada. Sanduíches pra cá, cafés e capuccinos para lá, coxinha de catupiri acolá. Um gordinho simpático pede mais maionese. Uma magrela raquítica pega o adoçante. Um molho com salsa e cebolinha escorre na saia da desatenta paty. Um esbarrão sem querer derruba a coca-cola da mão. Um amigo paga o cafezinho. Um flerte despretensioso de dois jovens acena um namoro futuro.

Um monte de estudantes famintos, empurra-empurra e uma fila interminável. “Fila que não dá pra enfrentar”. “Melhor sentar aqui no cantinho e esperar esse povo todo ser atendido”, resolve ele. Foi o que fez. Sentou ali numa mesinha e ficou olhando para aquela fila que parecia uma romaria.

Olhava para frente e via jovens ansiosos naquela fila que distribuía ainda mais ansiedade. Sem mais o que fazer, ficou ali ao lado ouvindo as conversas enquanto esperava a fila esvaziar para comprar seu cafezinho: “ah não sei Marcela, queria saber se ela gosta de verdade de mim” (…) “não vejo a hora em saber quando poderei fazer meu estágio” (…) “quero ver esse trabalho pronto logo” (…) “será que vou ser contratado”? (…) “isso, faz isso amiga, não fica tentando resolver tudo sozinha não” (…) “essa vida é tão doida, acredita que recebi uma proposta para sair do meu emprego justo agora que consegui um”? (…) “Será que o Renato vai ficar chateado comigo se eu não for ao casamento dele”? (…) “Sabia que a Kátia vai morar em Milão”? (…) “Meu sonho passar uma temporada na Europa”. (…) “ai meu Deus, tô tão cansada e ainda não sei ainda quando terei férias”. (…) “não aguento mais essa faculdade, o que eu quero mesmo é me formar, e começar a trabalhar de verdade” (…) “Cara, acredita que sai com a Flávia e, no outro dia, ela estava com o ex-namorado em frente a casa dela no maior amasso com ele”!? (…) “Aquela menina é super fofoqueira, e não gosta da gente, será que teremos que fazer o trabalho da professora Marta com ela outra vez”? (…) “não sei como vai ser, mas sei que tô contando os dias”. “(…) ah, se eu pudesse voltar no tempo”. (…) “Então, o que será que ela tá pensando de mim agora”?(…) “Jura que você foi naquela mulher que joga tarô e búzios”? (…) “Será que vou dar conta disso tudo que tenho para fazer”? (…) “O que será que vai acontecer, dá um medinho disso né”?!(…)

Eram muitas conversas e ouvir aquilo tudo o deixou atordoado. “Gente doida. Só sabem reclamar e ficar questionando as coisas”, ele pensava. “Que povo inquieto”! “Bom, pelo menos não sou o único a ficar questionando tudo, isso me serve de consolo”. “Se bem que esse lance de não ficar tentando buscar respostas para as coisas até que tem me feito bem”. “Se eu pudesse falar para esse povo que ficar querendo respostas pra tudo é uma grande perda de tempo”… Divagava em meio a fumaça do seu cigarro.

A fila não andava e as atendentes eram poucas. Desistiu então do café e resolveu tirar da mochila uma folha de caderno para escrever o que via. Um de seus hobbs prediletos era esse. Descrever cenas, criar alegorias das pessoas e de si mesmo. Só que não foi isso que ele fez dessa vez. Foi mais que isso.

Quando começou a escrever descobriu o porquê daquele sentimento estranho que o consumia naquela manhã. Assim que pegou a caneta as frases foram ganhando velocidade no papel e ele pode, enfim, entender o que se passava.

Terceiro ato: rascunho redentor

O texto rascunhado começava assim: ““viver, muitas vezes, como diz Cecília: “ultrapassa qualquer entendimento”. O problema é a gente ficar na vã tentativa em encontrar respostas para tudo. Que bobagem. Perde-se tempo e energia. A poetiza está coberta de razão.

Vida doida essa que a gente fica questionando tudo o que acontece. Buscamos incessantemente a aprovação das pessoas, queremos respostas instantâneas em downloads ligeiros em banda larga, nossos pensamentos e comportamentos querem sempre se antecipar às respostas que a vida só vai dar quando ela quiser. Tão difícil de entender isso né? A vida responde para a gente só quando quer mesmo e quando realmente precisamos.

Enquanto a gente fica tentando achar respostas para as coisas, a vida vai passando diante de nossos olhares estrábicos. Quando não achamos essas tais respostas que julgamos necessárias vêm aquele sentimento de incompletude. Aí a gente pira! Acho que negócio é não pensar demais…

Um clichê ambulante de barba como eu, às vezes, pensa demais quando a realidade só merece ser vivida. E essa inquietação louca por respostas chega a me perturbar e o pior, vejo que as pessoas ao meu redor também ficam perturbadas com isso. É, mas eu me nego a viver assim por mais tempo. Ou pelo menos tô tentando pensar menos e viver mais leve por mais tempo. Ultimamente, tenho descoberto que não saber o que vai acontecer é que nos motiva. A magia e leveza que buscamos encontram-se justamente nisso.

Acho que a vida, às vezes, não espera respostas de nós e nem quer nos responder nada. Na verdade, ela só pede para ser sentida e vivida. Talvez o propósito de viver não seja esse embate todo por dar respostas aos outros e a nós mesmo.

Por que procuramos o tempo todo desculpas para não ser feliz? Que tolice é essa da gente não ir atrás do que quer e ficar sempre arrumando desculpas para não sentir prazer na vida e pela vida? O tempo passa tão rápido e procuramos tanta coisa para nos afligir que nos esquecemos de dançar o ritmo da vida. A vida nos convida só pra dançar muitas vezes, e a única resposta que espera é que aceitemos essa valsa.

Essas tolas resistências que nos impomos diante das coisas, do novo e do inesperado só fazem a gente sofrer. A vida não é um pequeno parêntese, é muito maior que isso e está aí para ser vivida, só isso. O que sei é que a gente complica muito as coisas. Tudo é tão simples e a gente sempre acaba projetando, idealizando e sonhando o que deveria apenas ser simplesmente vivido. O problema é que a gente esquece que a vida é simples…

As coisas são como são e a gente fica com esse delírio retardado de querer mudar tudo e não aceitar quando vida só nos chama para dançar. Acho que as incertezas podem nos paralisar quando permitirmos e, isso, é muito ruim. O problema é que essa incerteza nada mais é que um ingrediente adocicado da própria experiência em viver…

Cada um tem o direito de ver e viver a vida como bem quiser. Tem o direito de opinar sobre qualquer coisa que lhe apeteça e ainda, aceitar ou não as coisas que sucedem. Isso eu sei e todo mundo sabe. E pensando nessas obviedades, faço valer aqui minhas viagens que, sinceramente, nem espero que sejam aceitas. São, na verdade, viagens pela própria graça de viajar, de sentir a vida, aceitá-la, internalizá-la e quem sabe externalizá-la. E hoje? Hoje eu quero mudar esse discurso reducionista de felicidade que tenho me imposto e quero, apenas, que a vida me convide a dançar. Hoje quero te puxar para dançar “”…

Quarto ato: o convite

Quando ele pensou em puxar alguém para dançar esse alguém já tinha nome. Era uma menina bonita que o tinha feito acordar naquela manhã diferente pensando diferente. Aquele texto sem conexão escrito às pressas enquanto uma fila sem vontade lhe atrasava o café, chegou ao ponto. Escrevendo ele chegou ao porquê de estar tão estranhamente pensativo.

Naquela altura já tinha esquecido o café, a fila e mergulhou naquele pedaço de papel dando asas a ponta de sua caneta. O texto continuava agora com uma lógica que era só dele: (…) gosto de dançar com você, sabia? Já te disse isso? Ainda não? Então, dance comigo mais uma música, por favor. Você pode fazer isso? Mais uma vez? Como é bom dançar com aquela pessoa que você está inevitavelmente se apaixonando. Por isso, hoje, quero insistir: quer dançar comigo outra vez? Vem, dance comigo para a gente espantar logo esse medo bobo de sofrer e de viver. Dança comigo e me ajude a parar o tempo. Dança comigo vai! Esqueçamos essa insegurança tola que nos afasta de ganharmos cores.

Sei que às vezes, quando não estamos perto um do outro, a gente dança uma dança meio louca, oceânica e não navegável. Mas, acho que se a gente dançar juntos, o medo bobo passa logo e, não vamos mais ficar questionando a vida quando ela se apresenta boa para nós. Esse seu sorriso que invadiu minha vida ultimamente tem me feito pensar muito em tudo. Penso em você, penso na paz que quero e meu jeito de pedir pouco querendo tudo me obriga agora a convidá-la para dançar comigo de novo.

Pegue uma de suas mãos e enrosque-a na minha cintura. A outra você pode colocar na minha nuca, e se quiser pode até passar pelos meus cabelos que eu deixo. Enquanto a música da vida toca acompanhe meus passos miudinhos.

Feche os olhos e deixe meu corpo encostar-se ao seu. Sinta essa música da vida que quer nos abraçar. Escute esse nosso silêncio que só quer nos mostrar que foi muito bom nos reencontrar nessa existência.

Só mais uma música. Mais uma música bonitinha. Mais uma música para a gente achar que a vida tem cores que ainda desconhecemos. Dance comigo outra vez e diga-me ao pé do ouvido, sem medo de errar, que “nunca é tarde para renascer no amor”.

Sei que minha barba vai te espetar, mas se puder, mantenha os olhos fechados, encoste seu rosto no meu e, sinta comigo o som da vida. Mais uma música grudadinhos para espantar o medo do que pode ser bom. Mais uma música grudadinhos para a gente ter a certeza que esse encontro não foi tão fugaz. É isso, é só a gente dançar grudadinhos que às pulgas atrás da orelha darão lugar aos beijos.

Dançar a vida quando ela quer que dancemos é o prefácio do amor. Dança comigo outra vez para viajarmos pra mais perto do mundo, do que de fato é real e, não precisa de respostas.

Último ato: o ânonimo e os sentimentos anônimos

Acabou o intervalo junto com o texto que ele escrevia. O sinal tocou e agora era hora de subir para mais uma aula. O que foi escrito ficou ali naquela mesa perto da fila que, naquela altura, já havia acabado.

João subiu as escadas e não viu quando alguém passou por ali e encontrou aquele pedaço de papel.

Ao final da aula, quando já saía para almoçar, percebeu um grupinho de estudantes comentando de quem seria aquele texto. Ele olhou aquilo com um sorriso no rosto e viu que além dele, outras pessoas também queriam dançar a valsa da vida.

Publicado: 09/04/2012 em jornalismo X jornalismo

Legalidade ou descriminilização?

O que pode e o que não se pode fazer a respeito

Essa semana um trabalho da faculdade me trouxe de presente à possibilidade de ver um filme bem interessante. Fruto desse trabalho da facul? Uma crítica do filme à luz da Teoria Hipodérmica e da Sociedade de Massa. O filme? O documentário: “Quebrando o Tabu”, dirigido pelo cineasta Fernando Grostein Andrade.

Como achei que valeu muito à pena fazer esse trabalho, e como acabei me envolvendo muito por ele, quis dividi-lo com vocês aqui no blog. Apertem o play e viagem comigo.

Comecemos por falar do filme que recomendo demais. O documentário é do ano de 2011 e reabre um debate antigo sobre as “possíveis políticas públicas (alternativas)” ante ao fracasso do combate às drogas no Brasil e no mundo, da miséria moral e flagelos sofridos pelos dependentes químicos, e da guerra do narcotráfico e violências geradas pelo consumo das drogas.

Guiado pelo sociólogo e ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, o filme traz diversas pessoas que se manifestam em torno de possíveis soluções e/ou reduções de danos causados pelas drogas.

Além do ex-presidente da República aparecem no longa-metragem os ex-presidentes norte-americanos George H. Bush e Bill Clinton.

Foram colhidos ainda relatos de pessoas comuns (entenda usuários de drogas em diversas partes do mundo, principalmente Europa), depoimentos de jovens estudantes, do “médico global”, Dr. Dráuzio Varella, e do renomado escritor brasileiro, “Mister” Paulo Coelho.

As falas de especialistas e autoridades internacionais no assunto: “combate e guerra às drogas” também não faltaram. Essas pessoas deixaram suas teorias, exemplos, conclusões, acertos, erros e estratégias para reduzir os danos à sociedade no tocante às drogas lícitas e ilícitas.

Mostrando argumentos contundentes e exemplos positivos o documentário faz o interlocutor da película pensar se aqui no Brasil também daria certo. Nos relatos elencadas nessa sequência é mostrado a o aprendizado de pessoas comuns. Os entrevistados trazem argumentos incisivos para condenar o uso de força militar contra usuários de drogas e dependentes químicos.

O filme já começa com uma linha do tempo com imagens e animações bem interessantes traçando o argumento de que historicamente o homem em toda a sua trajetória sempre utilizou drogas. Ora pesadas, ora leves, mas sempre fez o uso delas.  Isso induz ao telespectador a pensar que usar drogas é natural. Na dinâmica das imagens, falas e infográficos mostrados fica claro a intenção em manipular a mensagem e repassá-la ao espectador o propósito defendido pelos idealizados do longa-metragem.

Outro aspecto realçado nessa sequência que escolhi é a ideia que é passada de que proibir e perseguir usuários não seria, então, a melhor solução para nada, visto que usar droga é normal e cultural. Mais uma vez uma mensagem que é passada e aguarda uma resposta positiva de aceitação.

É mostrada ainda nessa primeira sequência que escolhi a Lei Seca nos Estados Unidos que abriu espaço para o surgimento dos gangsters como Al Capone (clara intenção de associar a figura caricata do mandachuva da velha Chicago dos anos 20 aos traficantes de hoje em dia).  O interlocutor dos vídeos é induzido e manipulado a pensar que a palavra: “proibição” pode não ser muita boa para a sociedade.

Nessa primeira sequência, já de cara, o documentário se fez valer de amostragens em discursos e em infográficos para realçar que a maconha causa menos mal que o tabaco ou o álcool. O diretor do documentário valendo-se das imagens massifica a ideia da descriminalização de drogas com pouco potencial ofensivo, como por exemplo, a maconha. A narrativa bem dinâmica acaba por deixar um assunto aparentemente tão áspero ficar leve, levando ao interlocutor pensar acerca do assunto sem essa tal aspereza. O que é verificado é que se aguarda uma resposta aos estímulos indutores mostrados.

O audiovisual vai construindo sua tese a partir de exemplos em outros países como Holanda e Suíça, onde a droga é parcialmente liberada e, por conseguinte (de acordo com a narrativa) melhor controlada.

Os resultados disso acabam por diminuir o número de usuários em relação aos países onde há proibição. Com exemplos positivas a mensagem anti-repressão das drogas é repassada ao telespectador. “O estímulo é a condição primária”.

Esses países onde as drogas são parcialmente liberadas são donos de altos índices de queda de transgressões dos viciados. O discurso aqui é claro pela não repressão das drogas. Os dados positivos desses países foram alinhados à política da não violência como forma de combater às drogas mais nocivas.

A narrativa também é construída com base em relatos de pessoas influentes. Degravei três discursos bem interessantes:

“Fornecer heroína para um viciado é diferente de dar álcool a um alcoólatra. Quando você já é usuário de heroína há muitos anos, a droga já não faz mais tanto efeito. Você toma basicamente para não se sentir mal. É realmente quando você criminaliza e marginaliza os dependentes que suas vidas são impactadas, muito mais do que apenas pela droga em si”, esclareceu Ethan Nadelmann, diretor da ‘Drug Policy Alliance’, citando os objetivos da política de redução de danos implantada por países europeus.

“É difícil você largar de uma droga da qual você é dependente, isso é considerado uma doença, você não pode por na cadeia uma pessoa que está doente. No futuro, nós vamos olhar pra isso e dizer: ‘Olha que absurdo que eles faziam no passado, pegavam uma pessoa que usava droga e trancavam na cadeia’”, afirmou o “médico global ”Dráuzio Varella.

Já em outra sequência FHC, num de seus depoimentos exclusivos, afirma que mudou sua opinião sobre a questão das drogas:

“Só quem é burro não muda de opinião diante de fatos novos. Viver num mundo sem drogas é utópico, isso nunca existiu, mas podemos trabalhar para reduzir os danos”.

Bom, isso faz o espectador pensar: Se até o FHC mudou sua opinião eu também posso mudar. Mais uma vez uma clara intenção em manipular a informação e persuadir as pessoas sobre a temática defendida da descriminalização das drogas, principalmente da maconha.

Mostrando argumentos contundentes e exemplos positivos o documentário faz o interlocutor da película pensar se aqui no Brasil também daria certo.

Nos relatos elencados nessa sequência é mostrado o aprendizado de pessoas comuns. Os entrevistados trazem argumentos incisivos para condenar o uso de força militar contra usuários de drogas e dependentes químicos.

Há uma conexão direta entre a exposição às mensagens e o comportamento aguardado. Com esses exemplos nessa sequência, espera-se uma resposta aos estímulos e a propaganda “Legalize” controladora apresentada.

Essa sequência começa com uma propaganda institucional do Governo Federal ao Combate às drogas. Interessante depois da propaganda é perceber que no depoimento de Paulo Coelho há uma crítica ferrenha às propagandas anti-drogas que não surtem efeito por serem panfletárias demais. Um contrassenso, afinal, a meu ver, o documentário é bem panfletário, diga-se de passagem.

Das minhas viagens

Analisando o documentário que foi produzido com uma linguagem bem convincente, objetiva e, com palavrinhas chaves bem trabalhadas e panfletadas, percebe-se com certa clareza à posição do cinema como instrumento de defesa de determinadas teses, ou seja, como um vetor de grande força comunicacional que ataca o receptor, na medida em que é uma válvula de escape para solidificar ideias em seus interlocutores.

Outra faceta interessante é que o filme (nesse caso específico, usado como um veículo de comunicação e informação) não se trata de algo isento. Ao contrário, o que é mostrado e a maneira como é conduzida a narrativa traz uma ideia psicológica massificadora sobre o assunto.

O modelo da teoria hipodérmica pode ser encontrado nessa assertiva, quando se verifica uma teoria de propaganda e sobre ela um efeito aguardado. Há uma intenção real em manipular determinadas informações sobre as temáticas das drogas.

Percebe-se a intenção de nos fazer pensar na “inevitável política de redução de danos” (usei a palavra “inevitável”, pois é assim mesmo que os roteiristas gostariam que pensássemos) apresentada pelo documentário que (em tese), reabre a velha discussão sobre a descriminalização das drogas, principalmente a maconha.

Segundo a teoria hipodérmica, “cada indivíduo é um átomo isolado que reage sozinho às ordens e às sugestões dos meios de comunicação de massa monopolizadores”. Esse argumento nos aproxima da ideia de que a película produzida por Andrade dá voz a esse substrato da comunicação, que é a clara e real intenção em manipular e esperar um efeito por parte do público. A mensagem é enviada pelo filme por meio de exemplos indutores à mensagem que quer se repassada e o que se espera é que as propostas elencadas no documentário sejam aceitas pelos espectadores.

Valendo-se da figura impoluta de um sociólogo e ex-presidente da República bem aceito por grande fatia do país, o filme consegue atingir não só a massa, mas também outros segmentos da sociedade, indo de encontro aos mais libertários, moderados e intelectuais.

Como já disse anteriormente, a defesa da descriminalização das drogas, sobretudo da maconha, ganha foco na narrativa de Andrade pelos vários exemplos mostrados no filme. No entanto, não me coloco aqui a favor ou contra o ponto de vista exposto no documentário.

O que é interessante avaliar é como e por que “ele” (o filme) foi construído da forma que foi. Sem teorias conspiratórias, mas com os pés fincados no chão, gostaria de suscitar as reais intenções daqueles que estiveram à frente da película, intenções essas que, podem ter um cunho eleitoreiro, mercantilista ou global (quando vemos uma co-produção do “bom moço”: Luciano Huck).

Contudo, é de se ressaltar que esta questão das drogas no Brasil e do tratamento aos usuários e dependentes químicos é uma questão de saúde pública e (ainda que levantadas de forma tendenciosa ou não) é ainda, uma das faces mais fragilizadas do nosso bisavô longínquo: o Código Processual Penal Brasileiro que jurássico, resiste ao tempo e às reformas que nunca vem. A falta de vontade política para resolver suas “lacunas abismais” do nosso ordenamento penal eu nem preciso falar não é? É um tema velado no Congresso Nacional, pouca gente discute. Os três poderes se calam quando o assunto são reformas em nosso ordenamento pátrio.

Não posso negar que vejo “Quebrando o Tabu”, como um filme corajoso ao levantar essas questões sobre os modos como “nós brasileiros” lidamos com o combate às drogas, reformas e saúde pública.

O documentário é, a meu ver (para além do que é certo fazer, pensar ou realizar a respeito), um interessante convite para discutirmos com a família, com os amigos e no meio acadêmico essas questões tão viscerais e pertinentes que, insistem em flagelar nossa sociedade.

Entendo que não temos no país sequer uma política concreta e projetos reais e executáveis sobre a questão. Temos medidas paliativas e inoperantes. Mas, reconheço também que essa minha opinião não invalida minha admiração pela proposta.

Apesar de vê-la um tanto quanto unilateral e às vezes ingênua em muitos dos argumentos, o filme e suas propostas servem de grande valia para alardear a questão e nos fazer pensar sobre temática. Pois, afinal, nem o mais inculto dos cidadãos poderia fechar seus olhos para essa “pandemia”.

Essa “pandemia” pelas medidas adotadas, por exemplo, pela Holanda e Suiça pode ter sido abafada. Mas, lembro que esses países são menores que estado de Minas Gerais. No entanto, com pesar, tenho que reconhecer que no Brasil essa “pandemia” ganha proporções continentais por motivos óbvios territoriais nossos.

Não basta apenas diferenciarmos as palavrinhas mágicas : “descriminalizar de legalizar”, como faz o nosso poliglota FHC no longa-metragem. O penso é que seria interessante esmiuçar mais  essa proposta da política de redução de danos proposta no filme sim, mas também, avaliar o quão ingênua ela pode se tornar, pois, tal proposta não sairá para o Estado mais “barato” que prender. Lego engano.

Essa proposta é válida se amparada de fato pelo Estado. Contudo, como acreditar em sua viabilidade se esse mesmo Estado mal oferece condições mínimas de educação e saúde para seus patrícios? Esse país continental assolado pelo crack teria condição de programar tais ações de redução de danos aos usuários? Tenho cá minhas dúvidas visto que essas medidas devem ser técnicas, incisivas, cirúrgicas e imediatas aos viciados em drogas.

Sobre a dinâmica das providências

Há pouco tempo uma pessoa me disse que não acredita em coincidências, e que prefere pensar “nas providências”.

Disse-me isso de uma maneira tão simples e me soou tão verdade que, não pude deixar de pensar sobre. Tais convicções ditas de forma tão espontânea e incisiva causaram-me um turbilhão de pensamentos sobre encontros, reencontros, laços e, principalmente, sobre como as coisas dessa vida se dão.

Essa frase, em princípio, me causou certa estranheza. Na verdade, me incomodou um pouco. Avaliando-a, não cheguei a conclusões precisas, mas sei que ouvi-la mudou alguma coisa aqui dentro. Fez-me mais agradecido por tudo que tenho vivido. Fruto disso? O presente post.

Quando parei para refletir sobre o assunto viajei em algumas questões. Fiquei divagando sobre como enxergamos o que (em tese) perdemos nessa vida. O que se estabelece de concreto e como lidamos com o novo que chega de mansinho para nos ensinar um milhão de coisas. O problema é que, muitas vezes, não notamos a presença “desse novo”…

Viajei demais? Talvez. Complexo isso? Não, super fácil de entender: explico à minha viagem. Aperte o play comigo…

A matemática de Deus, vez por outra, nos subtrai algumas coisas e experiências, fragmentando o que tínhamos como norte seguro. Isso assusta, mas logo num segundo momento, as energias da vida se apresentam imperiosas, e multiplicam novas possibilidades, nos dando um novo rumo ou quem sabe, dependendo do que a vida quer ensinar, um novíssimo pensamento sobre um determinado assunto.

Elas (as providências) estão sempre em movimento e chegam no momento exato que verdadeiramente precisamos. Podem se apresentar paternais e zelosas ou surgir em princípio, como algo ruim ou aterrador.

No entanto, chegam sempre muito “didáticas” para somarem às nossas vidas ciclos nunca antes imaginados, aproximando-nos de experiências salutares ou de novos desafios.

jogo da vidaEssas energias dinâmicas da vida que, agora, ouso chamar de providências, funcionam como uma partida de xadrez. São feitas para nos burilar. Elas são responsáveis por colocar as peças exatas no tabuleiro de nossas vidas. Movem casas, bispos, torres, cavalos, peões, rainhas e reis, oferecendo-nos pessoas que são colocadas em nossa trajetória para repaginar nossas existências. E no fim, xeque-mate. Tudo, para a gente poder ver mais além e tentar crescer. As energias se aglutinam e então, luz…

Pensando dessa forma, percebi que já tive várias providências nessa vida. Umas ruins que serviram para educar a mim e aos meus, e outras boas que me deixaram muito feliz. Muitas não me dei conta quando vieram e, outras tantas (principalmente as mais recentes), me saltam, agora, à memória.

Penso que quando uma tempestade se avizinha de nós, aparentemente, pode ser ruim num primeiro momento e não a aceitemos. Mas, na verdade, pode virar uma calmaria reconfortante no futuro. Tudo é um ciclo inteligente arquitetado por forças maiores para sempre nos ensinar muita coisa. São energias propulsoras que se afinam, inevitavelmente, para um bem maior. Viajei? Que nada! Continue lendo… rs

Acho que essa “arquitetura celestial” se dá para que desconstruamos velhos pensamentos e sejamos mais autênticos ou quem sabe, talvez, para que nos tornemos mais gente, sabe. A coisa toda se dá para que reconheçamos nossas inabilidades diante de algumas coisas, vejamos nossos erros e tentemos ser melhores. Mas, aqui, há um grande problema. Para sentirmos “essas tais providências”, antes, é necessário enxergá-las. E isso? Isso é tarefa das mais difíceis para muita gente, bem sei e aqui, não me excluo das estatísticas.

A grande questão é: ver pequenas providências onde aparentemente não há.  Conseguir enxergá-las nos torna especiais. Pelo menos vejo assim. Essas providências nos são direcionadas por um “Deus-poeta-brincalhão-louco” para que enxerguemos a vida como ela deve ser realmente vista: um imenso e grandioso educandário. É tipo: sentir para dar sentido. Entende? Ainda não? Vou tentar me expressar melhor.

Providências estão aí o tempo todo para que nós as sintamos. Elas estão aí para que não nos afastemos do que realmente precisamos aprender nesse plano. Pensando assim, vou de encontro a um exercício em tentar reconhecê-las. Elencar as mais inspiradoras pode ser uma oportunidade de sedimentar gratidão pela vida.

Uma “bela providência”, bem que poderiam ser tipo: sentir-se acariciado por um ventinho gostoso que balança o seu cabelo à beira da Lagoa da Pampulha, enquanto você está de mãos dadas com alguém que sorri mais que fala e que, providencialmente, alegra o seu fim de tarde.

“Essas tais providências” poderiam ser um sorriso lindo e espontâneo, arrancado por algum elogio que você fez para a namorada. Poderiam ser você perceber-se sem medo ao se jogar naquele colo gostoso, e deixar que as mãos dela baguncem o seu cabelo.

 “Uma bela providência” poderia ser você notar os vários tons de azul do céu, ver desenhos nas nuvens e projetando o seu futuro, enxergar entre elas o mapa da África. Talvez seja você olhar para casais de namorados ao seu lado e isso lhe ser algo que motive. Pode ser a possibilidade de trocar carinho, carícias, confidências e beijos com alguém que você está apaixonado. Pode ser a experiência de dividir um pôr do sol com alguém.

Essas “tais providências” poderiam ser um casal escutar uma música da Adele num bar e, sentirem uma vontade doida de dançarem ali mesmo, no meio da rua, grudadinhos, não se importando com a plateia. Uma ”bela providência” poderia ser uma coleção de “amigos-irmãos” com nomes de anjos, e você, admirá-los pelo caráter e inteligência. Essas “tais providências” poderiam ser você sair com seus amigos para beber até o sol raiar, e não se importar com as horas ou com o boteco copo sujo que se enfiaram no “centrão lama” da capital. Poderia ser uma palavra amiga, um afago, uma gentileza. Poderia ser o hálito quente daquela boca vermelha que você não consegue tirar os olhos dela. Poderia ser aquela boca sorridente que o convida a beijá-la o tempo todo…

Poderia ser um trabalho novo desafiante, um livro devorado em dois dias ou uma faxina no guarda-roupa. Uma “deliciosa providência”, talvez, seja você dar valor para uma avozinha lindona de quase noventa anos que o recebe na porta de casa com um abraço carinhoso. Poderia ser amigos que o amparam quando sua família não está por perto ou passa por dificuldades. Poderia ser você ter um pai dedicado e uma mãe amorosa. Poderia ser você possuir irmãos consanguíneos e de alma.

“Essas tais providências” podem ser uma piadinha ridícula contada por um amigo engraçado. Poderia ser a possibilidade redentora de estudar e fazer o que realmente gosta. Podem ser telefonemas que lhe arrancam risos. Pode ser um olhar sedutor da menina bonita que flerta contigo hoje, e que pode ser sua mulher amanhã. Pode ser a conclusão de que, às vezes, você não pode viver tudo de uma só vez. Pode ser você perceber que em outras, é preciso coragem para mergulhar nas coisas. Pode ser aceitar que a ansiedade só bate à porta daqueles que tem muito por fazer. Pode ser a percepção de que a inveja alheia só atrapalha quando a gente deixa.

Uma “bela providência” pode ser você ter pessoas que torcem por você de coração, sinceramente. Pode ser uma batata frita com um queijo engordurado por cima esperando que seus níveis de colesterol alcancem a estratosfera ou, simplesmente, sentar-se numa mesa com alguém que é bom ouvir, olhar e beijar. Pode ser você ir ao cinema e ficar o filme todo abraçando ela para que não sinta frio. Pode ser você perceber que nunca foi a um zoológico e que, ir ao parque de diversões com ela pode ter um sabor de infância, há tempos esquecido.

Uma “bela providência” poderia ser a lembrança de que nem todas as perguntas têm respostas certeiras. Poderia ser a observação de que ninguém agrada os outros o tempo todo. Poderia ser uma autoanálise de que minha vaga noção de completude se resume aos livros que li e às poucas experiências que tive.

Uma “boa providência” bem que poderia ser uma reflexão do quanto são bons os encontros com a felicidade, ainda que por “micromomentos”. Poderia ser você sentir-se protegido e abençoado por Deus. Poderia ser um pensamento de que para ganhar, às vezes, é preciso se perder um pouco.

Essas “tais providências” podem ser a constatação de que o amor nos invade enquanto a gente se olha e fica rindo. E que podem, inevitavelmente, tanto o amor como providências, se encaixarem perfeitamente dentro de um abraço gostoso dela.

Pauta do dia: o samba e o beijo

Sábado à noite. Dia de encontrar os amigos. E ele foi fazer parte das estatísticas. Apressado como sempre, se juntou a outros dois amigos no lugar mais acolhedor que conseguiram encontrar na capital.

Correndo desvairados para não sei onde, correndo do “não sei o quê”, mais uma vez foram levados por seus automatismos para aquele inferninho habitual. Um barzinho (entenda um “muquifozinho” pouco iluminado com uma boa música) perto da antiga faculdade que, há tempos, já não era mais tão encantador e atraente, mas que, pelo saudosismo de uma época sem correria sempre os fazia muito bem.

“Alô, e aí “fiote”?! Tá pronto? Anda logo aí, em “dois palitos” passo na sua casa. Bora logo pro lugar de sempre né?! Hoje, não tem plantão no jornal e, precisamos desacelerar”. O que? Peraí na linha, o Marcos tá na outra: “alô, já está aí no bar, já? Fico pensando se você é ansioso ou se queria mesmo era apressar a cerveja! Rará, que bom então, em vinte minutos estaremos aí. Vai botando a cerveja pra gelar, meu brother. Ok Comandante, rapidinho a gente tá aí, falou então!”

Um dos amigos já havia chegado ao bar. E os outros dois sabendo disso correram para não deixar o apressado esperando. Em ritmo de redação, correram, apressados, querendo correr da profissão de repórteres. Na correria, correndo, mais uma noite a correr de si mesmos.

Correria para esquecer a redação, a competição, a cobrança íntima profissional, e para lembrarem as dores e delícias de ser jornalistas. Correndo, foram, rapidinho, beber juntos e relaxar.  

Ao chegar ao bar cumprimentaram o amigo e, ainda correndo, foram de encontro a uma boa e velha Heineken. Correndo, escolheram suas músicas prediletas naquela já conhecida juke box, e para celebrar, sentaram-se juntos para mais uma tradicional resenha existencialista que os divertia e, amenizava suas rotinas velozes, áridas e abrasivas.

Depois de umas duas músicas dos anos 80 achadas no fundo do baú, divagaram sobre o que lhes era recorrente: correria, pressa, trânsito ruim, redação do jornal e estresse. “Isso aí me mata mais que meu cigarro e que, minha editora de cidades”, brincou um dos amigos.

Sentado ali com seus colegas de redação num papo descontraído, João se animava com as viagens filosóficas que iam surgindo e, vez por outra, mergulhava em seus pensamentos.

“Mudemos de assunto amigos. Hoje, quero efemeridades. Quero gente falando devagar. Quero poder pensar devagar. Quero pequenas doses de amenidades, com açúcar e gelo pode ser”? Riram de sua assertiva, mas não puderam deixar de concordar com ele. Sentiam-se em seus íntimos, também muito acelerados.

“Hoje você está temperamental, hein? Melhor então, é a gente começar a projetar nossa viagem para Cuba, pensar em nossas merecidas férias. Com calma. Esse tema é mais “açucarado” que ficar falando de redação, correria, pressa e estresse mesmo. Imagine um chá gelado com Fidel?”, gracejou um dos amigos.

“Ah, meus caros, minhas férias nem coincidem com a de vocês dois. Melhor é a gente falar de mulher. Já viram a nova estagiária, que linda?!” Soltou essa o outro “amigo mais galinha” que, ainda não tinha direito a férias no jornal em que trabalhavam juntos. Riram todos de como a frase foi dita, e confabularam sobre o olhar atraente da nova estagiária do caderno de cultura.

Apesar da prosa rolar solta regada as cervejas que desciam convidativas e ligeiras, ele não deixava de pensar em sua vida. Pensava, sem, contudo, dividir com os amigos.“Sou uma marionete do cotidiano, que merda. Um apressado. Sinto-me à própria correria. Às vezes, acho que chego ao ponto de não perceber mais a diferença entre as coisas e como as faço. Só sei, ultimamente, falar das pautas que me dão. Só sei ficar preso no trânsito e contar as horas para sair correndo para não sei onde. E o pior: olhar para o relógio e para semáforos vermelhos me é custoso”, pensava.

“Um, dois, ou três “amigos bebuns” queridos. Uma, duas ou três boas histórias para contar. Um, dois, ou três minutos para sair correndo daqui. Mas, para onde? Com toda essa correria? Onde é que vou parar? Um, dois, ou três escapismos necessários. Um, dois, ou três desafios futuros. Um, dois, ou três problemas a serem bebidos com vodka, limão e gelo. Um, dois, ou três motivos para sair correndo num sábado à noite e esquecer de tudo”, disparava.

E eis que: entre as músicas da juke box, tocou um samba.

Pronto, foi suficiente para acelerar ainda mais aquela mente irrequieta. Uma vontade louca de sair correndo dali para um samba de verdade, consumiu João.

“Meus caros, hoje aqui tá fraquinho, né? Bora logo prum samba? Vamos pro Cartola? Aquele lá no bairro Padre Eustáquio, perto da casa do Raphael?” Olharam-se e sem hesitar deram vazão à querência que, naquela altura, já não era mais só de João.

Samba e beijo

Chegando ao samba, sentir ainda era improvável para ele. Entraram, compraram uma cerveja e foram para perto do palco. Era noite do projeto “Saravá” que reúne ótimos sambistas e que toca o fino do samba. Isso os animou.

Samba de raiz tocando sem pensar no tempo, ambiente aconchegante e músicos talentosos no palco. Sambinha no pé pedindo para “sambalançar”, um ritmo contagiante devagarzinho: as coisas começavam a melhorar.

João pode enfim, olhar para cima do abismo mental que havia se enfiado.  Viu gente dançando feliz. “Preciso é de samba na minha vida e de mais tempo”, não deixou de pensar.

Após umas duas cervejas acompanhadas por canções de Clara Nunes, seus amigos tiraram os sapatos, colocaram num cantinho e, descalços, já se sentiam em casa. Ele, meio tímido, segui-lhes o exemplo.

Enquanto via seus amigos dançarem com duas garotas ao lado do palco, num insight duvidoso, João percebeu que a noite poderia lhe ser generosa, sem correria e sem automatismos maiores. Lançou-se a sambar miudinho, sem pressa e isso o fez muito bem. Deixou de pensar demais num monte de coisas e quis apenas dançar, ouvir uma boa música.

Parece que Noel o colocou no colo quando os músicos no palco começaram a tocar uma canção do mestre compositor. Carregado pela melodia do sambista, João olhou para o lado e viu uma menina bonita. “Nossa, ela é “a menina bonita”, como na música do Fino Coletivo”, deixou escapar esse pensamento.

Piscou, e tudo havia se cintilado. Ela sorriu para ele e, num impulso a chamou para dançar. Entre o convite feito para a menina bonita e o aceite final da dança, João teve medo. Um medo imprudente e estranho dela não aceitar a dança naquela hora que ele, intencionalmente distraído para afetividades, ousara gritar independência.

Ela sorriu quando ele pegou na mão dela e aceitou o convite. Ele, agora sem pensar muito, deixou-se afagar pelo samba, abraçou-a forte e entre rodopios, sambadinhas e sorrisos, quis conhecê-la melhor.

A primeira música tocou toda. “Vamos dançar mais uma?” Convite aceito. Mais cheirinho gostoso do cabelo da menina bonita, e a cada sambadinha, mais perfume dela ficava nele. João, ainda atordoado, não sabendo se era pelo sorriso da garota, se era por causa do perfume dela ou se pelas desafetações de sua própria vida, mal conseguia respirar.

Entre a incapacidade de respirar direito ao lado daquela moça e da sensação boa que sentia, ele tentava agora, dessa vez, não correr demais. Não se apressar. Queria aquele estado de encantamento que o dominava e, flutuando ao lado dela, num milésimo de segundo quis beijá-la. No entanto, vacilou num primeiro momento. Resolveu esperar mais um sorriso. “Sem pressa. Se ela sorrir de novo, estarei salvo”, pensou.

Mais uma música. As mãos naquele instante já não se soltaram, deixando apenas o tato e o sambinha rolarem. Os corpos, agora coladinhos pela dança, já se permitiam.

Era a hora então, de emancipar-se por algo que valia à pena. Ele vaticinou o que queria. Avizinhou suas intenções ao pé do ouvido da menina bonita que, soltou um belo sorriso e o beijo veio.

A magia estava salva, entre um samba e um beijo que desaceleraram a correria daquele rapaz. No outro dia, já em casa, João botou um samba lentinho para tocar no sonzinho da sala, e quis ainda mais o gosto daquele beijo.

Sobre: sentir falta

por João

Uma vez lhe disse que você era para mim o “espadilha” do baralho, tá lembrada? Aquela carta escorregadia que ganha o jogo no final, lembra disso? Sempre foi.

Sempre falei para as pessoas que, com aquela guria eu fugiria para qualquer lugar e, era essa garota (você) que me levaria para outros planos, outras cidades, outros estados, outros países e outros planetas. Por que eu tinha essa certeza? Vai saber né?! Tem coisas que a gente só sente e nem consegue explicar. O que sei? Sei que depois que a conheci levo dentro de mim, até hoje, o desassombro e a vertigem. E nunca neguei isso…

Na verdade, tenho que confessar: gostava do perigo em estar contigo. Da segurança e da falta dela. Da segurança dos seus abraços e do medinho que dava em saber que, nosso talento para aventuras é tão grande que podemos nos esquecer completamente um do outro um dia. Gostava da nossa capacidade em nos entregar e dividir também, talvez isso tenha marcado, não sei ao certo. Apenas gostava, gosto. Gosto porque gosto, sem maiores explicações. Como dizia Lispector, “viver ultrapassa qualquer entendimento”.

Sempre achei você talentosa, cheia de dons. E entre todos eles os de permanecer e transformar foram os que mais mexeram comigo. É simples assim: você chegou e ficou. Parou meu mundo. Construiu outro. Tirou-me da órbita que eu julgava confortável. Divisou. Afastou-se, mandei embora, me mandou embora, mas voltou. Sempre acaba voltando.

Quando vai quero que volte e quando perto, se minhas pernas não pedem para eu sair correndo, fico e permaneço em riscos inevitáveis. Uma felicidade espontânea, genuína, pura e infantil que, dá saudades sabe. Que sempre me levam a pensar naquela tarde em Copacabana. “Explode coração, na maior felicidade”… Lembra da gente cantando isso? E de todo mundo ficar morrendo de inveja do quanto estávamos felizes naquele dia? Não há como esquecer aquela tarde, mesmo que eu viva outras assim.

Dá vontade de rir quando penso naquele “caldo” que você tomou ao entrar nas águas de Ipanema. Quando saiu parecia um bifão à milanesa e ainda, pagou peitinho (rs). Como posso esquecer isso? Foi divertida a situação, e aquela sua gargalhada gostosa fez meu dia ser muito melhor. Linda, salpicada de areia, sol e muito amor. Rimos juntos daquilo, e como foi bom apresentá-la o mar! Você não queria sair da água e eu, feito um bobo, queria logo era arranjar uma bóia para te salvar.

Daquele dia, o último dia do ano, lembro-me ainda da odisséia em atravessar o calçadão de Copacabana com 3 milhões de pessoas pela frente. Já eram 22h30 e como se o tempo tivesse parado, a gente brindava com ele, em doses de beijos molhados e caipirinhas açucaradas.

Tínhamos que chegar ao apartamento da Barata Ribeiro para rever nossos amigos que, naquela altura, já estavam preocupados conosco e nos esperavam doidinhos para ir ao show da Alcione em algum palco na Avenida Atlântida. Lembra? Que benção foi chegar ao apartamento alugado, despachar nossos amigos, e passar a virada do ano só nós dois, debaixo do chuveiro. Que me perdoem os amigos e o empenho do Meridian em realizar um belo espetáculo na queima dos fogos do Reveillon, mas, foi muito melhor aquele banho que durou até às 2h da manhã com você.

Quando penso em nós, me vem à mente aqueles nomes exóticos dos nossos filhos sonhados que, por um motivo ou outro, nunca vieram. Terra, Lua, Sol. Astros que não nomearam filhos e, graças a Deus, pelo menos ninguém crescerá complexado com o nome. Lembro-me também dos nossos planos sonhados que adormeceram com o tempo. O tempo nunca foi para nós um bom amigo, apesar de cultuá-lo.

Quando penso em nós, não há como não pensar nos nossos acampamentos na beiradinha daquele rio. Um pastel assado nos bastava, um vinho barato nos apetecia. Aquela falta de grana era redentora naquela época. Não há como não lembrar aquele confinamento de três dias num motel no dia dos namorados. Os cartazinhos apaixonados pregados na parede, as pétalas de rosa jogadas na cama e no chão. Um altar que construímos para cultuar o que vivíamos. Lindo, apaixonante e inesquecível.

Lembro-me ainda daquele “capeta” na passarela do álcool em Porto Seguro que, te vez vomitar horrores. Do banho de mangueira debaixo de um sol escaldante. Da calcinha de oncinha que rasguei. Daquela sainha levantada numa hora imprecisa. Da rapidinha no carro antes de ir ver a família. Daquela fugidinha do mundo. Do quanto fui seu. Do quanto te pertenci. Do quanto você gostava que eu pegasse nos seus pés e fizesse massagem.

Quando penso em nós, como num estalo, fecho os olhos e se materializa na minha mente aquela cena daquele creme da Avon passado nas costas. Penso no ritual daquela massagem sexualmente convidativa. Um dadinho rolado que esquentava nossos beijos na cama. Um abraço de dentro para fora. Uma declaração de amor quando eu menos esperava. Um sexo de setecentos orgasmos. Um cabelo cheiroso. Um novo corte, uma nova cor. Três furinhos na orelha, a carona para o trabalho, o sono profundo de mãos dadas à noite.

Lembro-me com um sorriso no rosto daquele poema escrito a quatro mãos. Do sofá branco que era só nosso. Do lindo vestido novo. Como você estava linda naquele vermelho comprido com as costas de fora. Lembro-me até daquela sua sandália prata que foi paga de três vezes.

Quando penso em nós, lembro-me do cheirinho gostoso do pão de queijo saído do forno na casa da sua avó. Um tênis all star vermelho encardido que já tinha vida própria, visto que não saía dos seus pés. Duas covinhas encantadoras. Um beliscão no bumbum. Um olhar que dizia tudo. Brigas sem sentido algum. Beijos que diziam muito. Frases soltas que não diziam verdades. Suor de dois corpos amantes na sauna de um primo que não me lembro o nome.

Como esquecer aqueles dez mil SMS’s bonitinhos? Do show do Teatro Mágico, que foi mágico. Uma Joelma do Calipso debaixo de muita chuva. Um mergulho numa piscina quentinha de Caldas Novas. Dos mergulhos no sertanejo. Das tirolesas que nos lançamos. Dos vários mergulhos numa cumplicidade que era só nossa. Quando penso: mergulho no seu corpo. Dentro para nunca mais sair. Um sono gostoso de conchinha. Uma orelha molinha para morder. Umas mil pintinhas no corpo para contar, mapear. Um milho verde com bastante manteiga. Um pastel que engorda e faz bem. Uma revista da Natura para ver. Uma matéria no jornal interessante falando de encontros e destinos. Uma festa na roça. Uma festa à fantasia. Dois caipiras num baile junino. Um jogo de buraco para sociabilizar. Um halls preto para ferver. Um abraço gostoso que deveria ter ficado.

Sem dúvida, gratidão por tudo. Sim, e muita saudade. Não, não entendo mais nada. Amor? Grande coração? Conveniência? Teatro? Talvez tudo junto e misturado. Muitas vezes nem lembro, outras vira um caos o pensamento. Crueldade. Marcou, ainda não passou, vai passar?

Não entenderei, jamais, o motivo de tudo, só aceito. Esqueço, fico bem e, de repente, notícias e histórias. Um mergulho em lembranças. Tudo de novo, voz, versos, saudades e fogo.

Haja o que houver, seja o grande mistério que foi. Ficará na minha história e vou contá-la, sem cansar de repeti-la. Por que? Porque ainda queima.

Acho que preciso “dum” milagre. Porque meu Deus é de carne e morreu crucificado junto a nossa impaciência. Sem você por perto, sem estar dentro de você, sou só um sonhador sem bússola.

Não me chame para equilibrar o mundo, me chame apenas para dentro de você. Quantas vezes você quiser, quantas vezes o destino julgar necessário. O que queria mesmo era recitá-la, escrevê-la, bendizê-la e quem sabe, com sorte, reinventá-la num remake fiel  e vivo do que fomos um dia…

Dos transitivos, intransitivos e cores possíveis.
por João

Dos verbos em A: aperte o play. Ajude. Aperte-me em seu peito. Aperte o coração. Aperte e não acenda. Esqueça as vírgulas. Apague as reticências. Olvide as tempestades. Aventure-se. Afirme-se. Reafirme-se. Renove-se. Arrependa-se e alcance. Abrace-me quando eu chorar. Aceite críticas. Agradeça. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em B: beije. Beije muito. Sorria. Alegre-se. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Do verbo em C: Ceda. Compareça na cama. Conclua. Concilie. Critique. Perdoe. Convença. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Do verbo em D: dê uma flor a alguém. Desafine. Desafie. Machuque-se. Viva. Não tenha medo. Erre, aprenda e conserte. Desafie-se. Desafie-me. Durma cedo, durma tarde, aperfeiçoe o seu tempo. Seja amigo (a) dele. Desculpe-se. Derrube. Reordene. Refaça. Discuta. Questione. Saia correndo. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em E: elogie as pessoas. Enfrente-as. Esteja sempre disposto (a). Exploda. Pulverize. Ecloda. Imploda. Esclareça. Entenda. Esteja no cio. Esteja preparado (a). Voe num tapete voador. Escolha. Exponha sua opinião. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em F: “faça a diferença”. Faça pequenas surpresas para a (o) namorada (o). Apaixone-se. Faça tudo acreditando muito. Faça os outros sorrirem. Faça novos amigos. Reconheça os verdadeiros. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em G: Ganhe. Goste de esportes. Preserve-se. Goze. Goze muito. Esporre. Ejacule. Sinta. Viva. Perca. Renuncie. Abdique. Divida. Aproxime. Ouça. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em H: Harmonize-se. Humanize-se. Habilite-se. Prepare-se. Adquira conhecimento. Perca o hímen. “Hipervalorize-se”. Hipnotize. Seja honesto (a). Dê voz aos hormônios. Dê voz aos excluídos. Grite. Ensurdeça. Faça. Queira justiça. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em I: importe-se. Inove. Invente uma briguinha idiota de vez em quando. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Do verbo em J: jogue-se. Atire-se. Acredite. Ambicione. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em L: Liberte outrem. Livre-se. Liberte-se. Chupe ela toda. Dê prazer. Sinta prazer. Leia. Leia mais. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em M: mande. Comande. Mate-me de rir e mate a vontade. Mostre o que quer. Mostre-se responsável. Demonstre. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em N: não me acorde. Durma ao meu lado. Não queira me mudar. Não me encha de presentes. Naufrague. Ressurja. Mergulhe. Venha à tona. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Do verbo em O: ouça. Ouça-me. Ouça-se. Opine. Seja original. Olhe sem que eu perceba. Repare nas cores. Admire o céu. Dance na chuva. Ouça os meus sons. Cante comigo. Dance agarradinho. Corra ao lado. Voe com asas. Curta. Aprecie. Não julgue. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em P: peça uma pizza. Peça a Deus. Agradeça a ELE. Perfume-se. Poetize-se. Proteja. Salte, seja abismo. Não esqueça. Valorize. Acalente. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em Q: Queira vida. Queira mais. Queira cores. Queira sinceridade. Queira filhos. Queira amigos. Queira segurança. Seja você mesmo (a). Seja imperativo (a). Seja o imperativo. Queira estudar para uma prova. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em R: Revele-se. Revele-me. Revolte-se. Reaja. Frite. Cozinhe. Ame. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em S: Sinta. Saiba ouvir. Seja companheiro(a) para tudo. Saiba se ouvir. Saiba tudo ao seu respeito. Saiba tudo ao meu respeito. Sonhe. Seja lúdica. Seja cúmplice. Seja gulosa. Seja gostosa. Seja bruxa. Seja princesa. Seja casta. Seja anjo. Seja sonho. Seja imperativo (a). Saiba admitir. Seja hiperativo (a). Seja caseiro (a).Seja preguiça. Seja óbvio (a). Seja o inesperado. Seja tempero. Seja pimenta, canela e mel. Dance. Troque olhares. Chegue perto. Toque. Pegue. Possua. Sinta novamente. Abrace. Sorria. Tome posse. Transe. Goze. Ame. Coma. Dê. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em T: tenha fome. Tenha sorte e estômago. Tenha cordas para escalar. Tenha punhos para desafiar. Tenha boca, batom e vaidade. Tenha bunda, peitos e coragem. Tenha caráter. Tenha coragem. Tenha convicções. Tome um porre. Um “engov”. Um rivotril. Um Red Bull. Uma José Cuervo. Dance. Tenha coragem e saiba esperar. Fale. Tome banho de chuva.Goste de cachoeiras.Converse. Troque. Goste. Troveje. Faça barulho. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em U: use roupas apertadas. Use a gentileza. Use os gostos, sinta os cheiros, atire fora a maledicência. Use o sol a seu favor. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em V: verbalize. Veja filmes. Venha princesa. Chegue amando. Faça barulho. Ensine. Aprenda. Triunfe vontades. Veja. Seja vista. Seja tudo. Queira o nada. Queria o simples, faça o simples, faça o bem. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em X: Xerete. Questione. Xingue. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Dos verbos em Z: zangue-se. Ziguezagueie. Zombe de quem não lhe quer bem. Zarpe. Zere as diferenças. Não olhe para trás. Mire lá na frente. Não atropele. Vença. Dance na cara dos trolls, sambe na cara dos babacas.

Enfim, do verbo poetize. Do verbo conquistas. Do verbo edifique. Do verbo sucesso. Do verbo alcance. Do verbo sonhe. Do verbo realize. Do verbo conjugue. Do verbo divida. Do verbo beije. Do verbo lençóis. Do verbo transe. Do verbo sonhe. Do verbo ame. Do verbo vida. Do verbo ame-se. Do verbo ame-me

Dos verbos dos simples verbos: Dance na cara dos trolls e sambe na cara dos babacas que não enxergam a beleza de viver tudo isso.

Rompendo o insaciável

por João

Um belo dia de 2010 a campainha tocou e ao abrirmos a porta, ele chegou sorrateiro, como quem não quer nada. Chegou mansinho e silencioso, atormentando nosso estado emocional, pulverizando nossos sentidos e contaminado nós cinco lá em casa.

O que pudemos fazer? Aceitar – o primeiro passo, realizar o tratamento, o segundo e, ter fé – o “passo fundamental”.

Desde o diagnóstico, longos intervalos de horrível insanidade me faziam ensaiar um texto para vomitar impropérios a Deus sobre o câncer que resolveu bater à porta materna. Não tive coragem. Sou por demais temente a Deus, e cheguei à conclusão de que fazer isso não resolveria em nada a questão.

Estar refém da angústia de um tratamento materno de quimioterapia, radiologia e baterias intermináveis de exames me fez explodir hoje. O resultado? O presente post.

Pensei em falar da dor materna, do quanto sua feminilidade foi atingida por um câncer de mama, mas não sou eu quem passou por isso na pele. Só senti os efeitos emocionais que ainda ardem nela e em mim.

Meio aturdido, pensei ainda em escrever um post sobre a importância das mulheres fazer exames periódicos na prevenção do câncer de mama, mas acho que na minha atual condição, não seria tão inspirador. No entanto, fica à dica carregada de bom senso né?!

O que posso falar é sobre a experiência de um filho que vê sua mãe sofrendo com um angustioso tratamento. Que acompanhou a perda mensal de peso dela, que viu seu cabelinho lindo cair. Que ajeitou a peruquinha na cabeça e que elogiou os lencinhos coloridos que ela usou. Que viu, com o coração na boca, os olhos chorosos da sua irmã mais nova sofrendo com a dor da mãe, e ainda, sua irmã mais velha trocar os curativos e drenos do seio materno. Que deu apoio e continuará dando. Que está ao seu lado agora e sempre estará. Que viu sua família se mobilizar completamente para um bem maior.

Sei o que sinto e dividindo (ou vomitando, sei lá) o que tenho vivido posso talvez com esse post fazer um convite despretensioso às pessoas pensarem sobre a questão. Se alguma palavra como: reflexão, humanidade, solidariedade ou fé ficarem na cabeça do (a) caro (a) leitor (a), já me darei por satisfeito.

A intenção inicial era chorar um monólogo verborrágico que pudesse denunciar à minha falta de tato, e inaptidão em lidar com isso tudo. O que eu queria era deflagrar em lágrimas à minha total dificuldade em ver uma das pessoas que mais amo na vida sofrendo pelo mal do século. Acho que não preciso explicitar ou esmiuçar a questão, mas saibam que sentimentos de frustração e imobilidade diante da doença são normais nas cabeças dos parentes mais próximos.

O que nos resta nessas horas? Apoiar a pessoa que faz o tratamento, dar carinho, amor, atenção e ter fé no futuro.

Outra vontade minha com esse post era externar minha culpa por não conseguir tirar com as mãos o câncer dela. Descobri que chorar faz bem nesses momentos difíceis, e a aceitação deve ser uma busca constante.

Queria também chorar a tensão do meu pai, a dor física e emocional que o câncer trouxe para minha mãe, como também a angústia das minhas irmãs com tudo isso. Com mais de um ano de tratamento, a única coisa que pudemos fazer foi nos unir. E continuar tentando…

Ocorreu-me falar sobre como é difícil entender a doença quando ela está próxima de você, postar sobre como todos me irritam por perguntarem a respeito, mesmo que ainda tentando me ajudar. E só de pensar nisso tudo, lágrimas me escapam. No entanto, sinto que se eu sufocar mais um pouco esses sentimentos duais posso também estar sendo egoísta. Todas as pessoas estão suscetíveis a passar por isso um dia, e talvez esse texto possa ajudar alguém…

PAUSA – Ufa! Parei para chorar. Retomemos. Vamos lá! Perdoe-me à desconexão desse texto, chorar também é importante e escrevendo me liberto um pouco dessa dor lancinante.

Desde que minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama eu tenho sofrido de uma espécie de insônia chorosa e crônica. Tão chorosa que já não choro mais à noite, e tão crônica que até mesmo nos dias em que estou com sono e disposto a dormir, brigo contra esse instinto primitivo. Fico acordado sem razão qualquer. Talvez num estado de alerta, ou num estado anestesiado. Raros momentos sonhos, e quando sonho, sonho com a cura dela.

Talvez esse post seja fruto da perda da paciência. Talvez a dor seja só minha, mas de tão minha quero gritá-la aos quatro ventos. Talvez esse post seja o meu horror à morte e à chuva de dificuldades que muitas pessoas gostam de chamar de fase.

O que tenho descoberto com essa doença? Descobri que não tenho me alimentado bem e nem sinto apetite para me arriscar. Alimento-me ultimamente é de uma fé louca, que às vezes acredita demais, e em outras, se esquece que existe. Nesses momentos, me sinto meio órfão, órfão da minha pouca fé. Se alguém está passando por isso, só posso pedir que tenha uma fé inabalável e que esteja próximo (a) à pessoa que sofre com câncer. Esteja próximo (a) de Deus. Busque isso a cada segundo.

Todos passam por um inferno astral em algum momento da vida. O nosso chegou assim, sem percebermos. E quando isso acontece, as convenções sociais ditam que se deve aguentar firme, focar em seu fim e procurar manter-se motivado. Bem sei disso, temos tentado e recomendo para quem estiver vivendo isso tentar também.

Os motivos pelos quais nós nos vemos acometidos por um inferno astral só Deus sabe. Aceitemos isso também. Porque não podemos nos esquecer que, de tempos em tempos, “Murphy” escolhe alguns de nós como bonecos de testes e procura levar nossa tolerância a níveis colossais. Mas independente da razão, o importante é seguir em frente. Ter tolerância, ainda que as lágrimas nublem nossa visão.

Tenham também paciência com as pessoas. Elas sempre dizem como você deve comportar-se nesses momentos. Para cada caso as reações são diversas, saibam disso. Sim, há os: “boa sorte”, “força que vai dar tudo certo”, “você não merece passar por isso, tem meu apoio”. Mas isso tudo é tão necessário e acalentador quanto mergulhar em algum lago na Sibéria.

As intenções geralmente são boas e em alguns casos sinceras, mas ainda assim estão mais próximas do completamente dispensável que do fundamental. No entanto, tenho aprendido que é necessário ouví-las.

A verdade é que são poucas as pessoas dispostas a abrirem mão de algumas coisas na própria vida para se entregarem ao objetivo de dar a quem enfrenta o inferno um lugar onde se segurar, um suporte adequado. O suporte que percebo necessário é um amor incondicional pela pessoa que atravessa tal problema e muita fé no futuro e no tratamento.

Claro que sempre queremos vencer na vida. Vencer tudo! Inclusive uma doença dessas que nos pega de surpresa. E nesse caso, expor minha privacidade me dá força para seguir e continuar acreditando que quando o câncer vem, o melhor remédio é dissipá-lo na fé e no apoio incondicional da família e amigos mais próximos. Agradeço a ambos.

Esse post só aqui está por eu não conseguir ainda me adaptar à calmaria que antecede a tempestade, ou a tempestade que antecede à calmaria!

A palavra é: PARCIMÔNIA reiterada por meu amor total por você minha mãe, minha doce guerreira. 2012 é o ano da virada! 

Remendos e miscelâneas

Publicado: 28/12/2011 em Otras cositas más

Remendos e miscelâneas

Por João

“Todas elas juntas num só ser”, do Lenine. Você conhece? Tenho uma história muito particular com essa música que agora, divido com você. Esta canção está no Top Five da minha Gold List. (rs)

Não passo um dia sequer sem ouvir músicas. Quando estou faminto, as devoro, bebo-as e me embriago em suas cadências melódicas, saciando uma sede insana de viver.

Sou aquele protótipo de jornalista que alivia sua intensidade e conflitos na leitura e nos sons. Aquele serzinho meio louco que usa as trilhas sonoras para recriar pequenas doses de vida. Das melodias extraio o mel, sonorizo cores e poetizo dias.

Acho que muitas músicas são como as cores. Às vezes, são fundamentais para aliviar o “cinza concretado” que o cotidiano nos impõe. E essa pérola do Lenine, trata-se de uma canção genial que reúne numa espécie de compêndio melódico todas as musas, as ninfas, as esposas, as companheiras, as parceiras, as namoradas, as amantes e as divas que despertaram amor, lascívia e paixão em cantores, compositores e toda a pá de poetas e escritores que amaram essas mulheres de atitudes audaciosas e inspiradoras.

Pausa – recomendo ouvir a música agora. Clique aqui para ouvir a música, vai! Aperte o play!

Não tenho dúvidas de que o amor só se dá quando admiramos a outra pessoa. E isso vale também para as músicas. Sabe o que eu mais admiro nessa canção do Lenine? Por que gosto tanto? Gosto do encanto dessa composição em torno do signo feminino.

Nela, é cantada a fortaleza audaz do universo “delas”. A letra da música  é meticulosamente arquitetada com base no poder em que elas têm em nos inspirar, e nos deixar completamente rendidos aos seus encantos. Essa música canta o quanto nós homens somos viciados no bem que elas nos fazem. Começo falando dessa canção para explicar o motivo desse post. É porque, irremediavelmente, não vai existir uma única vez que eu escute essa melodia e não pense nela.

“Ela”? Trata-se de uma garota que “chegou chegando” à minha vida, fazendo barulho, tipo: um som de heavy metal no talo que incomoda os vizinhos. Entrou de sola e deixou marcas. E assim como na música cantada pelo trovador pernambucano, conseguiu reunir: “todas elas juntas num só ser”, transmutando-se de um aparente rostinho bonito “nas coisas mais queridas”.

Essa mocinha que fala pelos cotovelos, que não mede as palavras e que às vezes sorri mais que fala, despertou num cara intencionalmente distraído para o amor (eu) sentimentos apaixonantes. Tirou-me do confinamento. O interessante é como isso aconteceu.

Se antes era aterradora a ideia de me relacionar e sofrer por amor, após esse encontro, passei a aceitar minhas condições de vulnerabilidade, e o “querer tê-la para mim” virou uma questão muito importante.

Ao contrário do preestabelecido que reza uma reação altiva por parte do homem que vai a busca dos “seus objetivos”, e tenta persuadir a mulher a um enlace afetivo, essa garota de olhar inquietante com uma voz lascivamente infantil, inverteu os papéis e lançou-se a correr atrás de sua prenda (no caso, esse mortal que vos conta essa história).

Escrevo sobre essa guria de olhar egípcio e ao mesmo tempo de águia para servir de convite às outras tantas que gostariam também de inverter os papéis, e despertar sentimentos em caras míopes para o que de bom há nessa vida.

Há momentos na vida que nós homens somos absurdamente donos de uma zona de conforto estúpida, e se o lado feminino não fizer uma forcinha a coisa não sai do lugar. Tipo: não evolui, entende?

“Chega de estrabismo afetivo e miopia sentimental, vem pro lado de cá da força”, disse-me ela certa vez. Não preciso dizer que depois de ouvir isso me interessei por ela né!? Ela me pôs luz e me inspirou! Virou do dia para a noite a “musa inspiradora Doralice”, assim como na canção do nobre pernambucano Lenine.

Enquanto eu me entretinha com a possibilidade de ser jornalista, horas a fio perdidas em meus estudos acadêmicos, mergulhos sem voltas às minhas literaturices e ainda, cultuando cada vez mais noitadas homéricas de botecologia (ciência moderna muito admirada por repórteres) ela traçava sua estratégia.

Como uma raposa, ela identificou que eu precisava mesmo é de cuidados e me estendeu sua mão, talvez, para me livrar da lama solitária, etílica e automática que eu havia me enfiado.

Eu andava distraído entre reportagens, pautas, livros, efemeridades cotidianas e encontros despretensiosos. Na verdade, dava vazão a um grande talento que tenho: ocupar-me de vazios.

Relacionamentos mais sérios, só os que eu nutria com meus autores prediletos que, acalentavam os meus invernos (não infernos) astrais. Automático feito um robô, não tinha tempo de fazer a barba e pentear o cabelo. Trajava-me à moda dos moradores de rua. Vivia sem vaidades e largadão. Alguns lampejos de lucidez, às vezes, me faziam pensar numa academia para cuidar da barriguinha de choop que crescia mais a cada verão. Não mais que isso. E quando mirava as mulheres, tenho que confessar: vinha-me somente a ideia do que elas poderiam fazer por mim sexualmente.

Quando meus hormônios protestavam independência, eu me enroscava em corpos femininos que nem conhecia a procedência. Afff! Um troll vadio desajustado, nada mais. Um estado deplorável, uma lástima. E ela enquanto isso? Atinha-se ao seu objetivo em se aproximar de mim. Enfeitava-se na paixão, perfumava-se no lúdico, colocava o salto alto de uma estratégia bem definitiva de conquista e, seguia-me de longe. Não era minha amiga e não tínhamos amigos em comum.

Afinidades aparentes somente nosso gosto por variados ritmos de música, e de comum, a cidade que nascemos. Nossos registros civis denunciavam uma “identidade mineira do interior” que aluzia a uma cidade ilha deixada há muitos anos. Mas, para a sorte dela e minha, Deus criou o céu, a terra, as águas, o homem e as improváveis redes sociais. Deus salve a América e o facebook!

Tenho que admitir: o Mark Zuckerberg  teve a manha em criar essa merda viciante, e foi justamente ela a responsável por trazer à minha vida um amor real. De frente para o notebook e deitada entre travesseiros, ela planejava aonde, como e quando me daria seu “golpe fatal”. Primeiro? Descobriu meus gostos, minhas músicas prediletas, meus autores queridos e lugares que viajei. Depois? Foi só saber pelo “face” uma data de uma festa que poderíamos nos encontrar “por acaso”. Tudo saiu como ela havia planejado.

Encontramo-nos numa festa despretensiosa e o “destino” tomou conta do resto. E confesso: depois que ela me mostrou a sua “crueldade incisiva” e o desejo em me conquistar, eu gostei dela ainda mais. Não são somente as mulheres que gostam de se sentirem desejadas…

Ela venceu. Nocauteou-me no primeiro round. Acertou-me um direto no queixo de direita e no fígado um jab de esquerda. Rendi-me por completo. Topei o rali.

Quando o juiz abriu a contagem no ringue: 1, 2, 3, 4, 5, no 6, eu não levantei mais. Ela confiou no seu taco, fugiu do padrão, comeu quieta e me mostrou por A mais B que ela era única da minha antiga lista telefônica feminina que merecia ligações.

Chegou gentilmente sedutora. Com aquele jeitinho engraçado de começar falando pelo final foi enumerando aparentes pontos em comum que tínhamos, e como quem não quer nada, de forma sutil, demonstrou fiel atenção aos meus autores prediletos e filmes preferidos. “Viu João? Eu te enxerguei e você me enxergou. Nos vimos. Acredita nisso agora?” Nem preciso falar né? Ela teve a manha. Ponto para ela. Gol.

Passado algum tempo, os encontros foram se tornando cada vez mais frequentes e as afinidades cada vez mais se evidenciavam. De repente, envolvidos. De repente, troca e cumplicidade. De repente, lascivamente apaixonados. De repente, nos pertencíamos como tantos homens pertenceram às mulheres cantadas na música de Lenine.

De repente, ela reuniu: “todas elas juntas num só ser”. Saciou minha vontade de bater asas e trouxe luz para os meus dias.

Ela mudou minha rotina. Aceitei suas vírgulas e quis as reticências que a vida me presenteara. E isso me fez ser sincero com ela. Nunca escondi dela que sempre tive vocação para cultuar o efêmero. Que manipulo minhas ambiguidades como posso e que sou curvas e hipérboles. Que gosto da minha “bagunça poética” e que o amor pode até me tornar um “estorvo redentor”. Essa última máxima descobri pelas mãos daquela morena linda. Graças a ela.

Não escondi também que não sou mais que “remendos e miscelâneas”. E que, depois que a conheci, a vontade em juntar meus retalhos de existência aos sonhos de vida dela virou uma necessidade.

Sabe por que ela me ganhou? Porque foi honesta e audaciosa. Desmentiu minhas neuras, serenou meu ego, desarmou meus complexos e intercalando lambidas, amor, paciência e olhares carinhosos, conseguiu enfim, coisificar paixão.

Agora, bastam alguns sem vê-la para que eu já não saiba o que fazer nos próximos. Esse serzinho de pouco mais de 1,65 m, mostrou-me que o amor pode ser sonorizado em dias melhores.

Quando estamos juntos entramos noutro reino! Encontrei um novo amor que eu posso buscar no aeroporto e confesso: dói vê-la longe de mim. Não gosto de vê-la longe de casa. Da minha casa. Mas a casa? A casa é onde o coração está. E a música? Talvez seja aquela que toca e me faz pensar nela.

No divã: terapia literária – carta aberta de alguém que perdeu o medo em pedir perdão

por João

Gosto de gente que fala olhando nos olhos. De almas expostas. De gente intensa. De mulheres audaciosas sem medo de ser feliz. Gosto de coisas verdadeiras ainda que, não sejam tão boas. Então, de cara, digo a você que não sou santo não, bem sei. Se quisesse andar na ponta dos pés eu teria feito balé. Gosto mesmo é de barulho e penso que ninguém passa ileso nessa vida. Hora ou outra o amor marca a todos nós, querendo ou não querendo.

Não nasci para um Mahatma Gandi ou tampouco vim ao mundo para agir como uma Madre Tereza de Calcutá. Não tenho vocações sacerdotais, evangélicas ou existencialistas. Entre o santo e o profano, acho mesmo que prefiro o segundo que é bem mais divertido. Entre o céu e o inferno acabo seguindo a tendência dessa sedutora fila do open bar. Tenho que concordar com um texto do Gabito Nunes, “minhas necessidades afetivas acompanhavam as fases da lua”.

Até então, nunca havia me sentido afetivamente envolvido ou tendencioso a contrair núpcias. (rs) Ao contrário, quando era cogitada a hipótese de estar ligado realmente a alguém eu logo rechaçava.

Nenhuma “manobra de confinamento afetivo” me prendia. Minha zona de conforto sempre canalizou os movimentos afetivos de uma forma bem simplista. Fui dono de relacionamentos meteóricos que conspiravam apenas para que a aventura se tornasse uma hipótese possível à minha satisfação instantânea.

Assim como centenas de pessoas que conheci, era um hedonista legítimo. Nascido e criado para um fim maior: a satisfação pessoal. Minha vocação nata atendia somente aos meus hormônios. Agindo sem a menor reflexão, realçava meus ímpetos e dava vazão ao desejo que corria solto naqueles meses que as trazia para minha vida.

Passado um semestre ou um pouco mais, meu olhar se voltava para novas saias que eu julgava mais coloridas. O mulheril entrava e saía da minha vida facilmente, ora porque queriam, ora porque eu permitia. Na real, para mim era bem conveniente que isso acontecesse. Uma vida insana, eu sei. Sinal dos tempos? Muitos homens e mulheres ainda agem assim, deliberadamente? Diga-me você…

Numa vida regida por ciclos, eu acreditava que a “fila” não anda, na verdade, acelera como um Fórmula 1. Depois de um tempo percebi o lego engano que me enfiei. Pude sentir, às duras penas, que a vida tem pit’s stop’s sim. E que só alcançamos o primeiro lugar do podium quando nos relacionamos verdadeiramente com alguém.

Antes era só fogo e gasolina. Intimidade, intensidade e explosão de sentimentos que culminavam num frustrante: “chega, não dá mais para mim. Não temos tempo para ser tolerantes, para nos estressar com os outros”.

Hoje em dia a gente casa antes de namorar e um “até mais” basta. Uma merda, concorda? E eu fazia parte das estatísticas, sem compromissos ou maiores explicações. Covardia? Talvez seja essa a palavra de ordem.

Aquela máxima de que: “és responsável por aquilo que cativas”, não me era tragável. E os hemisférios do meu umbigo sempre falavam mais alto. O bem da verdade é que amores continuavam me acertando de raspão, talvez porque eu agia como um idiota medroso e egoísta.

Eu era feito um passarinho arisco. Aquele tipo que não quer um ninho e que deseja apenas voar de encontro ao sol. Um beija-flor ligeiro que acreditava na sua vitalidade e força não tendencioso a beijar uma única flor. Isso, naquele momento para mim, seria desperdiçar o dom de voar que me fora dado. O desejo de sair batendo asas para vários lugares era maior. Como eu estava enganado meu Deus!

Era assim que agia. Enquanto elas queriam abrir o placar logo no início da partida, eu jogava apenas por um empate sem gols, por um insosso zero a zero, sem maiores responsabilidades. Mas, desde que a conheci, as coisas mudaram radicalmente.

Agora, depois de me ver complemente envolvido por ela, eu queria mesmo era virar o artilheiro do time, jogar no ataque com a camisa 9! Um ousado 3-4-3. Ficar com ela era o podium desejado.

Percebi gostando daquela guria que escapismos não resolvem muito os estragos causados por nossos tsunamis egóicos. E que a vida prega peças na gente. Minha auto-suficiência deixou de ser suficiente quando ela se tornou fundamental para mim.

De repente amor, simples assim! Esse sentimento chegou como o vento, sem direção certa e me fez rodopiar. Após esse encontro, aprendi que não existe bússola ou rosa dos ventos para tirar a gente dessa rota quando a vida se torna imperiosa.

No início eu tive certo receio, acho que estava projetando minhas limitações nela. Mas reconheci com o passar do tempo que ela não era nada daquilo que imaginei. Que bom é a gente se surpreender com as pessoas para melhor né? Ela era muito mais. Muito mais densa, suave, nobre, carinhosa e gentil. Apimentadamente adocicada.

Cada vez que saíam palavras da boca dela parece que tudo ganhava conexão na minha vida. A pele dela tinha uma eletricidade em 220 v que me deixava sempre alerta, tipo a Cemig, que se diz a melhor energia do país. Ela me tirava da órbita que eu julgava segura, e é isso que eu gostava nela. Dava um medinho do que iria acontecer, e era orgasmático me aventurar nesses mares. Com ela ao meu lado eu nunca ficava no escuro.

De repente, do nada, ela se tornou algo imprescindível. Chegou de mansinho e me descobri amando-a de uma forma tão visceral que me doíam às próprias vísceras. O problema é que todo casal um dia, irremediavelmente, briga né? A grande questão é: o que fazer nessas horas.

Num desses desacordos eu fiz valer minha idiotice histórica. Bastou uma contrariedade com ela e um afastamento momentâneo para eu meter os pés pelas mãos. Quis voar e com uma boca vermelha insinuante na minha frente, um bumbunzinho sedutor, não me aguentei e confesso, não foi difícil bater asas novamente. “Passarinhei” demais, digamos.

A casa caiu baby! O problema? Conto-vos agora.

Uma imaturidade filha da mãe. Fiquei com outra garota muito menos interessante, quando na verdade, eu queria mesmo era reatar o namoro com ela. Um canalha? Eu sei galera, eu sei…

Fiz de tudo para perdê-la, mesmo que inconscientemente. Resultado? Consegui meu intento. Apesar de percebê-la a dona do ninho, minhas asas não deixaram de voar quando as coisas se convergiram em obrigações mais sérias um com o outro. Fiz merda. Essa é a verdade. Ruídos do ego, da canalhice masculina, do imediatismo e do não pensar direito tiraram ela de mim. Perdi e acho mesmo que mereci.

Aceitar que você perdeu uma grande oportunidade de ter sido feliz ao lado de uma mulher tem um gosto ácido. Nesse exército de “vencedores”, I’m a loser, man! A perdi tão facilmente como uma criança deixa o bico ou a chupeta cair no chão. Talvez a criança aqui que chega à casa dos trinta não tenha se dado conta de que brincou demais quando era o momento de se recolher àquele sentimento nobre que rapidamente criava raízes.

É falo de amor! De amor que vem sem a gente esperar! De derrota, erros e aceitação! E aceitar que fui derrotado por minhas próprias pernas é duro! Bem sei. O que tiro dessa experiência?

Vejamos. Sei que perdê-la me fez pensar em como agi deliberadamente com ela e com outras. Ficaram as lembranças. E já faz muito tempo que nem tenho noticias mais dela.

Penso sobre, mas ainda não tenho respostas exatas e sequer sei mesmo se aprendi com a lição. Mal de jornalista saber apenas perguntar, uma lástima.

O que me lembro? Lembro-me que nosso lance era tentador, charmoso e irresistível. Lembro-me da marca de iogurte que ela gosta, sei da aversão que ela sente a cebola e milho e, me recordo saudoso da Ioga que ela fazia. Foram brincadeiras gostosas de contorcionismo na cama.

Lembro-me que ela detesta ficar sozinha aos domingos e que seus olhos eram como jabuticabas fresquinhas. Sei que seu perfume era o que Afrodite usava e que as covinhas do quadril dela me enlouqueciam. Sei que ela não desejava ser o “remake vivo” da vida de seus pais, e que quando sorria o sol ficava pequeno.

Lembro-me que ao assistirmos juntos “O Último Tango em Paris”, na hora da cena picante, ela tomou a iniciativa, apertou o stop do DVD e me amou de jeito único, fazendo-me sentir como se eu fosse o próprio Marlon Brando.

Lembro-me ainda que no começo do namoro eu achava estranha aquela fixação dela pela Betty Boop, mas com o passar do tempo eu bem que gostei de conhecer cada calcinha nova que ela comprava da personagem do desenho animado.

Recordo-me dos dedinhos dela passando no meu braço contornando as linhas da minha tatuagem. Lembro-me também do pavor a gato preto que ela sentia, e que misturar minha coleção de vinis do Beatles aos do Led Zepellin dela não foi uma boa ideia. Não tenho como esquecer que a influenciei a ler quase todos os romances do García Márquez, e que quando íamos dormir ela ficava relembrando trechinhos dos livros ao pé do meu ouvido.

O que sinto quando penso nela? Sinto que ela despertava em mim um desejo de ser melhor. Sinto que ela nasceu para ser lambida, tipo: um doce de leite numa colher de sobremesa. Sinto que quando estava ao seu lado eu me tornava uma criança arteira no meio de uma brincadeira. E isso era delicioso!

 A verdade quer saber a verdade? A verdade é que amo todos os detalhes daquele serzinho de 1,65m, que ainda sinto o gosto da saliva dela, que a sua pele amorenada queimava feito brasa e que seus invernos interiores eram tão gélidos quanto a Sibéria.

A verdade? A verdade é que temos os dois, grandes habilidades em construir amores fabulosos. Espero que o futuro nos aproxime de volta pelo menos para eu poder dizer a ela: o quanto fui estúpido. Quando o fim é um erro crasso, não há muito o que se lamentar. Talvez aceitar seja a máxima e ousar rascunhar essas linhas tortas seja a saída.

Fazendo às vezes, então: perdoe-me menina linda. Exclamação.