“Carretera de La Muerte” – de bike na neve – uma descida de 65 km.
por Joãooooooo
Abrindo o espaço que escrevo sobre viagens, gostaria de lhes trazer um lugar e atividade não muito conhecida por brasileiros. Este local e atividade são na maioria das vezes freqüentados por viajantes de toda a América Latina. Vi muitos estudantes e especialmente loucos de pedra. Lá a gente encontra jovens europeus lunáticos, asiáticos ensandecidos, adolescentes norte-americanos pretensiosos e argentinos fumados. Sério mesmo. E os guias turísticos mais loucos ainda. Acho que é o efeito do ar rarefeito. Brincadeira. Vale muito à pena…
E lá estava eu. Minha intensidade desmedida me levou àquele lugar. Trata-se do passeio de bike na “Carretera de la Muerte” na Bolívia. Um passeio de 65 km de bicicleta de La Paz à Coroico.
Eu estava junto de um grupo de brasileiros, argentinos, chilenos, colombianos e noruegueses. Viajávamos há uns 25 dias. Estávamos nos primeiros dias em La Paz e andando pelas ruas do centro daquela cidade não pudemos deixar de notar uma agência de viagens de eco-turismo e esportes radicais que vendia este passeio.
Entramos e quando percebemos já estávamos comprando o pacote turístico e descobrindo o tal do ““down hill’” na “Carretera de la Muerte”, la carretera más peligrosa del mundo””. Na hora de comprar teve gente que amarelou, gente que amarelou depois e outros que quase amarelaram.
O pacote oferecia uma van dando suporte a todos os 65 km do percurso. Ofertava as bicicletas, roupas, agasalho, comida no caminho, fotos, vídeos, camiseta escrita: ”eu venci a death road”, banho de piscina num hotel em Coroico e lanche ao final do dia, e lógico, retorno de van a La Paz.
Não me lembro muito bem, mas acho que custou em torno de US$ 30. A empresa que comprei o pacote se chama “Bolivian Astrid Tours”. Outras duas muito bem recomendadas foram também a “DownHill Madness” e a “Gravity Downhill’ todas no centro de La Paz, próximo a “feria de la brujas”.
Essa coisa de estrada da morte é bobagem, eu dizia. Inocentemente achei que “todo aquele “mito” da estrada da morte” fosse apenas uma jogada de marketing montada ou um apelo para se vender mais um dos tantos atrativos nos arredores de La Paz.
Ledo engano meus caros. A estrada tem este nome bastante sugestivo porque realmente acontece diariamente uma quantidade considerável de acidentes envolvendo automóveis, caminhões e ciclistas na descida dos 65 km de La Paz à Coroico. Muito em função da precariedade do asfalto e dos eternos abismos de um lado e do outro da pista. São inacreditáveis 3.600m de desnível, em apenas 65 km de distância. Fazendo o percurso você se depara com as cruzes na curva dos franceses que mergulharam no abismo, a curva dos argentinos que não conseguiram frear, a curva dos irmãos ingleses que voaram abismo abaixo. São muitas histórias.
Após comprar o pacote do passeio de bicicleta nos informaram que sairíamos no outro dia cedo e me perguntaram se eu já estava aclimatado. Para minha sorte eu já estava. Eu já vinha subindo a Bolívia desde Santa Cruz de La Sierra, passando por Samaipata, Sucre, Potosí e Oruro. De todo modo nos mandaram mascar coca e descansar (o trajeto é realmente desgastante).
Sairíamos então no outro dia cedo em uma van que nos levaria de La Paz até La Cumbre a 4.700 m. De lá começaríamos a descida na estrada da morte. Desceríamos 3.600 m até Coroico em 65 km de bicicleta. Passaríamos por Pongo, Unduavi, Chuspipata, San Juan, Yolosa e terminaríamos em Coroico.
Uma rota de 65 km – neve, abismos, beleza, caminhões e cascalho.
Dia seguinte. Frio. Um fim de janeiro irremediavelmete frio. Acordei animado com o motorista da van chamando na portaria do hotel. Éramos então, seis aventureiros que debaixo de neve, começaríamos a descer a “Death Road” boliviana.
Recebemos recomendações do guia instrutor do trajeto de como brecar e posicionar o corpo nas curvas. Um fato nos assustou de cara: disseram-nos para descer rápido (em alguns trechos e determinadas curvas se não se corre na bike fica bem mais difícil de guiá-la) .
Deram-nos um agasalho vermelho, luvas e capacete. A bicicleta era bem bacana: possuía pneus largos que pareciam pertencer a alguma espécie de motocicleta. Tinha suspensão e freios a disco dianteiros e traseiros.
Fomos informados também que haveria sempre uma van de apoio, caso alguém do grupo sentisse algum mal-estar ou medo da descida. Para quem amarelasse era só continuar o passeio dentro da van. Claro que ninguém queria isso.
Começamos então, as primeiras pedaladas debaixo de muita neve e um frio insuportável. As luvas que eu usava nem de longe esquentavam meus dedos. Iniciamos a descida na parte asfaltada que era repleta de curvas. O início da estrada da morte (ou estrada de morte) divide espaço com carros, abismos gigantescos e caminhões e ônibus que buzinam em nossas nucas e orelhas para ultrapassar. Detalhe: a estrada não é duplicada. Muito foda, me permitam dizer.
Fomos descendo e do nada a neve nos esqueceu e a estrada asfaltada terminou dando lugar à outra estrada ainda mais estreita e cheia de cascalhos e pedras. A inclinação e o medo aumentaram. Já não sentia frio. Aí me dei conta da “fria” e da “benção” que eu tinha em mãos. Nas mãos o guidon da bicicleta e a certeza de que realmente era de morte aquela estrada.
Os abismos eram sucessivos. A cada curva um maior que o outro. Em diversos trechos tínhamos somente quatro ou cinco metros de estrada e abismos impressionantes a nos engolir. Paredões rochosos de um lado e um abismo faminto do outro. Um caminhão subindo e um carro descendo. Gringos profissionais em “down hill” descendo a 90 km/h tirando fino de todos nós. E eu ali, contendo o medo e sentindo a adrenalina aguçar meus instintos de sobrevivência. Sentia o coração na boca. Ele já não batia. Saltitava e gritava comigo: “você é mesmo estúpido hein cara”! Resolveu ficar de mal de mim e disparou a sacudir acompanhando os compassos da trepidação dos pneus da bicicleta. Quando pude, parei numa pequena reta, fiz o nome do pai e segui. Uma das argentinas que estavam comigo começou a chorar. Que situação, pensava. Tínhamos a certeza que um descuido qualquer, uma frenagem em um momento errado ou uma derrapagem, poderiam facilmente nos jogar para o fundo do abismo. O que me dava mais medo eram as bicicletas dos gringos profissionais em “down hill” que passavam bem mais rápido que nós e em alguns trechos parecia que se trombássemos com eles cairíamos todos.
Nessa altura as velocidades das nossas bicicletas chegavam a 60/70 km/h e mesmo freando parecia que as bicicletas não conseguiriam parar naquela estrada repleta de cascalho. O que me confortava eram as paisagens que eram coisas de outro mundo.
Seguimos enfim e eu que nunca em toda minha vida havia pensado em fazer um “down hill” de bike, me senti muito bem ao final. Foi extraordinário. E o melhor… superei limites físicos e psicológicos. Nunca neguei esta minha insana atração por desafios e vontade de me testar.
Iniciamos o trajeto a 4.700m junto às montanhas nevadas e depois de umas 5h30min estávamos, graças ao bom Deus, todos ilesos desfrutando de um paraíso tropical. O que se via era uma densa selva no meio das montanhas, com araras, macacos, cachoeiras e piscinas naturais. O calor chegou por benção. Coroico foi glória demais. Ao final, agarrei-me com Deus e agradeci.
Foi um passeio fundamentalmente de superação e por isso incrível. O risco sempre em todo o trajeto esteve presente. Mas valeu a pena. Venci mais esta e fui contemplado no percurso por belezas naturais inigualáveis. A quem interessar possa: é perigoso sim, mas com cuidado e precaução pode se tornar uma bela história a se contar aos netos.


































Parabéns, bela aventura!!! Espero um dia faze-la.