Mina de Prata de Potosí

 

Crença, esperança, resignação e dor há 800 m abaixo da superfície

 

Solidarizo-me à dor das famílias dos 33 mineiros soterrados na mina de cobre “San Jose” no interior do Chile. Que Deus os proteja! Pelos noticiários recentes que acompanhei soube que demorará cerca de quatro meses para resgatá-los. Ainda há esperança. Sorte a todos!Que “El Tio” os proteja!

 Da reprodução de uma conversa com um “mineiro potosino”

 Estava com meu mp3 no bolso da minha calça jeans. Tive alguma dificuldade para retirá-lo porque usava outra calça por cima. Usava outra calça que me deram na agência de turismo. O peguei e liguei o gravador. Reproduzo na íntegra uma conversa que tive com Manuel Alfredo Inkari Collás (o sobrenome “Inkari” é de origem quéchua). Mexendo ontem no meu caderninho de viagens achei o nome deste mineiro. Agradeci a Deus por isso. A gravação da conversa está no meu PC faz tempo. Só tive o trabalho de degravá-la.

A minha pergunta: “Señor que piensa del turismo en el interior de la Mina”?
Manuel Alfredo Inkarri Collás me respondeu: “Hombre soy contra! No estoy de acuerdo. Porque quien gana com eso son sólo las tiendas de turismo. Sólo ellas. Nosotros somos sólo regalos para ustedes. La vida de nosotros no se cambia em nada. Nosotros no ganamos nada com eso. Los gringitos vem acá y nos vêem cómo animales. Nosotros no somos así. Nosotros somos sólo trabajadores y tenemos una familia que nos necesita. Nada más. Pero la falta de plata y diñero hace com qué eso se suceda. Hacer o qué no? Pero creo que también es necesario ver-lo. Te gustas el periodismo no? Entonces, puede dicer a todos o qué te digo. Puede mirar la falta de la gente, la pobreza, exploración e la falta de dignidad que vivimos. Sólo quiero que mi hijo salga um dia de la mina. Yo, yo ya soy escrabo de acá. Sólo le pido a “El Tio” para nos protegirmos”.

 Tradução: João : senhor o que pensa do turismo no interior da Minas? Inkari respondeu: Homem, eu sou contra!Não estou de acordo. Porque quem ganha com isso são só as agências de turismo. Somente elas. Nós somos somente presentes para vocês. A nossa vida não muda em nada. Não ganhamos nada com isso. Os gringuinhos vem aqui e nos vêem como animais. Não somos assim. Somos somente trabalhadores e temos uma família que nos necessita. Nada mais. Mas a falta de dinheiro faz com que isso aconteça. Fazer o que não?Mas acho que é necessário também ver isso. Você gosta de jornalismo não? Então, pode dizer a todos o que te digo. Pode ver a falta da gente, a pobreza, exploração e falta de dignidade em que vivemos. Só quero que meu filho saia um dia da Mina. Eu, eu já sou escravo daqui. Só peço ao ”Tio” para nos proteger. 

Nunca me esquecerei deste homem e de seu filho. 

 

 Da descoberta e justiça

 Antes que inicie este texto tenho que confessar algo a vocês. Foi o lugar que visitei que mais mexeu comigo. Emocionei-me e me indignei com as condições de trabalho dos mineiros em “Cerro Rico”.

Estive  no interior de “Cerro Rico” por cinco horas e não me arrependo em ter descido quase 800 m montanha adentro. Sou um pouco claustrofóbico, mas encarei essa. Não me arrependi mesmo. Talvez me arrependa de não ter publicado o que vivenciei antes. Mas em tempo, faço justiça agora lembrando a dor daqueles trabalhadores. Saibam de antemão que se existe inferno, a Mina de Prata de Potosí, sem dúvida alguma, deve ser aqui na terra a filial. Dor e sofrimento foram o que vi.

 

Um pouquinho da história do lugar ontem e hoje

 

 A Mina de Prata de Potosí está localizada no Monte “Cerro Rico”, numa região conhecida como Alto Peru. No período colonial foi o maior centro produtor de prata de toda América Latina e quiçá de todo o mundo. A origem do nome “Potosí” é do dialeto quéchua. Significa explosão. Reza a lenda que as jazidas de prata foram descobertas por conta de um cidadão de origem inca, Huayna Cápac.  Quando Cápac caminhava próximo a “Cerro Rico”, ouviu uma voz dizendo-lhe para abrigar-se, pois naquela noite faria muito frio e uma nevasca se aproximava. Então, orientando-se pela voz da montanha, montou acampamento. 

Quando fazia uma fogueira para aquecer-se, ele ouviu mais uma vez a voz da montanha que lhe mostrou o futuro de seu povo. A voz da montanha contou-lhe que ali aos pés de “Cerro Rico” havia milhares de riquezas. No entanto, o advertiu que sua prole e nem sua descendência iriam usufruir delas. Todas as riquezas estavam destinadas aos homens de cabeça de ferro (referência aos elmos usados pelos desbravadores espanhóis) montados em animais grotescos. (muito provavelmente cavalos). 

 Esses homens de cabeça de ferro eram os espanhóis que, em 1.545, começaram a explorar a Mina. Neste ano, Juan de Villarroel em carta informou para a colônia espanhola a descoberta da Mina de Potosí. Depois da atroz exploração tanto da mina como dos indígenas, ao final do século XVII, “Cerro Rico” já contava com mais de mil entradas e galerias produzindo anualmente 200 mil quilos de prata.

  

A partir daí, a exploração colonial foi intensa, fazendo de Potosí uma importante cidade na economia mundial exportando prata para a metrópole. Apesar da cidade de Potosí ter crescido exponencialmente a exploração dos indígenas tornou-se cada vez mais voraz. O denominado sistema de exploração estabelecido à época ficou conhecido como mita, que era uma forma de trabalho indígena compulsório particularmente instaurado na região do Alto Peru.Os mineiros indígenas da mina de Potosí eram chamados de “mytayos”.

Eram essas pobres criaturas forçadas a trabalhar 16 horas ininterruptas e não ganhavam nem um décimo do que encontravam no interior de “Cerro Rico”. Os acidentes eram frequentes e a mortandade dentro da mina era algo perto do absurdo.

Pelo que apurei, isso nem guia nem agência de turismo quiseram me informar; morreram um número perto de 30.000 indígenas no trabalho mitaio de exploração da prata. O metal encontrado era separado com agentes de mercúrio e faziam grandes barras de prata pura que desciam nos lombos de lhamas até o Pacífico. Toda esta atroz exploração para atender aos requintes do império espanhol que fez de Potosí a maior mina de prata do mundo.

O guia me informou que a riqueza existente no interior de “Cerro Rico” financiou durante quase 200 anos o desenvolvimento de toda a Europa. Quis acreditar e acreditei. Coisa curiosa foi o que ele me disse: “se juntasse toda a prata retirada das jazidas de Potosí, daria para construir uma ponte ligando a cidade à capital da metrópole, Madri”. 

Passado o período áureo ou no caso práteo (não sei se existe esta palavra e/ou expressão, então, estou tento o prazer de inaugurá-la) Potosí amargou uma imensurável decadência e pobreza.

Hoje ainda há extração de prata em menor quantidade, além de chumbo, estanho e zinco. Mas mesmo assim, “Cerro Rico” continua sendo a maior mina de prata do mundo.

Atualmente, entre os mineiros existe uma certa organização de trabalho. Eles se dividem em poucas cooperativas. 

A maior parte da exploração é feita por empresas européias. Cooperativas mesmo são cerca de 130 hoje.  

Fato interessante é que as empresas tiveram que se readequar à escassez de prata em “Cerro Rico”. Atualmente não vendem e nem exportam mais prata pura. Pela necessidade, agora comercializam um complexo misturado de prata com estanho, chumbo e zinco. 

 

Estas mesmas empresas são responsáveis também pela separação. Na mina, sete mil mineiros trabalham arduamente: de oito a dez horas por dia, com paradas de três em três horas. E mastigam coca. E como mastigam coca. 

 Dos preparativos para entrar na minas de prata.

Potosí explora o turismo de sua própria tragédia social. Inicialmente gostaria de alertar que é um passeio turístico nada convencional e bastante perigoso. (ao final deste “post” vocês concordarão com o que afirmo).

O acesso à mina só pode ser comprado nas agências de turismo da rua “Ayacucho”, no centro. Há outras operadoras próximas a Plaza Diez de Noviembre que também vendem o pacote.  Entretanto, as da “Ayacucho” são mais confiáveis. Os passeios saem sempre na parte da manhã. Foi o que fizemos. Acordamos cedo e fomos a uma agência da “calle Ayacucho”. Sete horas da manhã (horário local) estávamos Carol e eu a comprar o pacote turístico. Foi um dos pontos altos em toda minha viagem pela Bolívia. Não pela aventura, mas, sim, pelo que vi e presenciei. Perdoem-me, mas não me lembro os preços.

O roteiro pela mina inclui uma van que sai da porta da agência e leva até “Cerro Rico”. Antes, duas paradinhas. A primeira numa espécie de almoxarifado para se colocar roupas adequadas, lanternas nos capacetes, baterias das lanternas em um cinturão, botas e equipamentos de segurança. 

A segunda fica por conta de uma visitinha rápida num pequeno mercado já próximo da Mina. A gente pára por lá para comprar os “regalos” para os mineiros. Mimos para aqueles que nos recebem debaixo da terra. As preferências não são suvenires não!Nada de coisinhas desnecessárias. Os mineiros sempre esperam dos turistas alguma coisa como sacos de folhas de coca, bananas de dinamite, detonadores, cigarros, álcool etílico (eles bebem álcool etílico puro) e refresco. Itens vitais para o trabalho dos mineiros. A agência de turismo nos dá a opção de escolher o que presenteá-los. Mas é obrigatório levar alguma coisa. 
Se você é claustrofóbico esqueça a aventura deste “post”.

Ligue-se somente nas idéias e não queiram mesmo adentrar aquela montanha. 

Do “tour” pela Mina 

Depois de entrar, vocês (sempre acompanhados pelo guia) poderão percorrer 3 km no interior da jazida e descer cinco níveis de 100 a 150 m de altura. O “tour” em  Cerro Ricodura entre quatro e cinco horas. O nível seis (são onze no total) das galerias quase nunca é visitado por turistas. Se vocês insistirem agradando o guia (entendam, um dinheirinho) ele pede permissão ao mineiro encarregado do setor (molha a mão dele também) e os levam então até lá. Esta galeria impressiona ainda mais pela falta de condições de trabalho, calor e ar repleto de foligens e partículas de resíduos sólidos das rochas.

Instruções e muita curiosidade antes de entrar na Mina.

Nosso guia era uma figura simpática, falante e inteligente. De sorriso fácil e agradável também não escondia os rigores da responsabilidade que carregava em seus ombros. Afinal, ele seria um salvaguarda de gente curiosa e despreparada num ambiente altamente imprevisível. 

Notei no guia um pouco de ansiedade e receio, pois, não estava nos levando para um passeio cor-de-rosa com vista para o mar. Nem levava-nos a um parque de diversões com cores e algodão doce. Não, estava nos levando para um local com certos perigos e o rigor também deveria prevalecer. Assim o fez. Foi enfático nas instruções. Incisivo e enérgico em alguns momentos. 

“Quando eu disser virem à direita vocês me obedeçam rápido sem pensar em nada e virem à direita ok? Quando eu disser para abaixarem e engatinharem, por favor, façam isso que será melhor para vocês”. Não quero ninguém reclamando de nada, façam o que eu peço que tudo vai dar certo. “Estarão seguros olhando sempre para o chão e para meu capacete”. “Listo”? “Vamo-nos, entonces gringuitos””. Lembro-me bem da maneira como ele colocou “as coisas” para nós. 
 
E ele estava certo mesmo. Imaginem turistas em meio a bananas de dinamite, “El Tíos” por todas as galerias, explosões nas ante-salas ao lado, entre materiais explosivos, TNT puro, buracos, carrinhos com tolenadas de pedras descendo em trilhos a mil por hora, caminhos escuros, buracos, labirintos e ainda com uma densa poeira a nublar a visão? Ele foi um anjo, sou-lhe agradecido demais. Acho que todos os guias do lugar são severos assim e precisam realmente ser.

Já caminhando para a entrada, a curiosidade me dominava e perguntei ao guia quantos trabalhadores em atividade estavam naquele dia dentro de “Cerro Rico” ao passo que este me respondeu que cerca de 7 mil pessoas revezam horários em turnos diurnos e noturnos. Naquele inferno e naquela hora do dia havia cerca de 4.500 mineradores trabalhando. Perguntei sobre trabalho infantil e ele desconversou.  

No interior das galerias – lá em baixo

São várias as entradas para o interior da Mina. A que nós entramos era aparentemente tranquila. São aproximadamente 300 ainda em atividade. É um eterno labirinto numa montanha de 4.700 m. Um queijo suíço. Em “Cerro” Rico ainda se extrai prata e uma quantidade considerável de estanho, zinco, chumbo e cobre. 

Chegar às galerias onde trabalham os mineiros pode demorar bastante. O caminho é escuro, estreito e sinuoso. Foram caminhos curvados e trechos em que rastejamos.  Depois que entramos na mina entendi porque o guia desconversara sobre trabalho infantil. São muitas crianças.

O choque inicial ficou por conta de menininho de aproximadamente uns doze anos que marretava rocha sem qualquer equipamento de proteção. Demos-lhe um refrigerante.Mais tarde descobri que são cerca de quase mil crianças trabalhando ali. Todas ilegalmente, lógico. Pobres crianças disfarçadas atrás da poeira suspensa no ar do interior da mina. 

 

Após  uns trinta minutos caminhando num corredor comprido. Nosso grupo: Carol, um jornalista argentino, sua esposa e eu entramos na primeira galeria. 

Tivemos que parar. Naquela altura, a esposa do jornalista argentino já não passava bem. Já era calor demais e a qualidade do ar ficara consideravelmente ruim. Pelo reflexo das luzes de nossos capacetes já dava para ver partículas de rocha suspensas no ar. Ela desistiu. 

Tivemos que esperar o guia levá-la de volta. Ficamos conversando com uns três ou quatro mineiros que abriam uma nova galeria. Detalhe: eu não conseguia respirar sem a máscara de proteção. No meu caso um paninho que o guia me arrumou. Os mineiros não tinham nenhuma máscara.

Depois que o guia retornou seguimos mina adentro. Fui ficando condoído e angustiado pelas cenas que via. Vi mineiros com as bochechas lotadas de folha de coca marretando freneticamente rocha, explodindo salas, outros com pás limpando o terreno, carrinhos lotados de areia, trilhos sem fim, buracos, pedras, caminhos e destinos. Almas presas expiando suas provações. Resgates. Inferno. Esperança. 

Mais umas tantas galerias e agora era a vez da minha amiga Carol pedir arrego. “Para mim já deu João”, me disse. “Eu volto com o outro guia que encontramos aqui dentro e você e o argentino seguem”. Tudo bem se eu continuar? “Tudo, mas para mim já deu”. E assim foi. 

Mais uns cem metros abaixo eu já não conseguia respirar era de jeito nenhum e o e calor me sufocava. Minhas pernas doíam e do ar só sorvia o aroma do enxofre. O cheiro do inferno, eu pensava. Mas segui, aliás, seguimos. O jornalista argentino que suava feito uma chaleira e eu. E voltamos à duras penas. Chegamos à superfície umas duas horas depois que minha amiga subiu.

O mais triste e frustrante é saber que aquelas pessoas que encontrei se continuarem ali, ao longo dos anos, correm o risco de irremediavelmente sofrerem de “silicose pulmonar” em virtude de respirarem poeira tóxica diariamente. Mais um detalhe: “silicose pulmonar” não tem cura.

Fiquei sabendo que em 2008 morreram 16 mineiros vítimas de explosões, quedas e gases letais. Em 2007 foi o recorde da década, perderam suas vidas 36 mineiros. E em janeiro de 2009 que foi quando fiz o “tour” já haviam falecido dois mineiros. 

Por todo o trajeto, sentimentos mistos me guiaram. Uma hora eu queria dar atenção a todos àqueles trabalhadores e outra hora recobrava meu pragmatismo e racionalidade querendo dar o fora daquele lugar. 

Ao sair um misto de euforia, comoção e alívio tomaram conta de mim. Exaustos e sensibilizados regressamos. Descemos na van calados. O argentino não movia um músculo sequer do rosto. Sua esposa seguiu-lhe o exemplo. Carol e eu optamos pelo silêncio. E o silêncio falou alto e se estendeu até à noite quando nos reunimos com Chimicatti e Botaro num café do centro de Potosí.

Da cultura e crença religiosa dos mineiros 

Bizarra. Inusitada e sombria. São esses os adjetivos que consigo encontrar para sintetizar a atmosfera que reina a crença dos mineiros de Potosí.

Os mineiros que trabalham no interior da mina não firmam sua fé na cristandade coisa trivial e normal para nós. Esses homens que vivem no escuro quando nós estamos mirando o sol cá fora, tem “El Tio” como guardião.“El Tio” é guardião de seus trabalhos, guardião da Mina e guardião de suas vidas, protegendo-os dos perigos de estarem submersos terra abaixo. 

Encontrei a figura do “El Tío”, “El Diablo”, esculpida em rocha bruta na maioria das galerias em que passei com meu grupo e guia. Posso dizer que isso é algo perto do assustador quando estamos submersos dentro de uma montanha  a 600/800 m. 

“El Tío” é uma espécie de padroeiro dos mineiros e muito misticismo envolve seu nome. É o deus da Mina. Sua força está no poder de dar prata e retirar prata das mãos dos mineiros. Dar vida e retirar vidas. Prover e sistematizar. Entregar, emprestar e conduzir. Vi a figura de um deus pagão, extremamente voraz assim como os espanhóis foram um dia para a vida daqueles pobres. Senti um deus temperamental que os índios mineiros respeitam e o agrada em oferendas toda primeira e última sexta-feira do mês. Para minha sorte no dia em que me encontrava na Mina não eram datas de oferenda. Entretanto, para alguns, todo dia é dia e acabei presenciando cenas em que mineiros presentearam “El Tío” com álcool (álcool etílico mesmo), cigarro e coca, ora agradecendo ora solicitando auxílio.

Conversando com um mineiro dentro de uma galeria no interior da Mina, este me falou que “El Tio” também foi cultuado por alguns espanhóis na época da colônia. Há algumas imagens de um “El Tío” travestido de espanhol.

Meu novo amigo mineiro que eu acabara de conhecer, praticamente me obrigou a fazer uma oferenda para “El Tio”. Colocou-me medo na verdade. Disse-me que se não desse um cigarro para a imagem eu não sairia da Mina. Credo. Só pude pensar. Automaticamente, fiz o nome do pai e fui lá de boa fé e coloquei o cigarro na boquinha do bichinho esculpido na rocha. Quando voltei, ele estava rindo de mim e me ofereceu álcool etílico para tomar na tampinha da garrafa. 

Enfim, uns cem números de rituais são feitos diariamente a “El Tio” pelos mineiros. Rituais para pedir proteção são os mais freqüentes. Outros para ganhar e encontrar prata. Inferno aquele lugar. 

 Das dez constatações finais 
    

 Primeira: nunca valorizei tanto minha vida.

Segunda: nunca me sensibilizei tanto com uma causa.

Terceira: aprendi a respeitar e aceitar uma crença religiosa diversa da minha. 

 

Quarta: as condições de trabalho são horríveis para não dizer subhumanas. O maior problema que os mineiros sofrem são as doenças pulmonares causadas pelas condições do ar no interior da mina. Fica  impossível  de se respirar por tantos anos um ar tão carregado e tóxico. É claro que os trabalhadores terão problemas de saúde. Toda família de mineiro tem alguém que já teve por causa mortis a “silicose pulmonar”. 

 

Quinta: O tempo de trabalho dos mineiros no interior da Mina é de sete a doze horas diárias de segunda a sábado. 

Sexta: não existe vínculo empregatício. O trabalho é sempre temporário de acordo com as demandas de exportação da Mina.  

Sétima: o salário é irrisório. Pífio e injusto. É quase trabalho escravo para não dizer que é. Os mineiros mais antigos fazem parte de cooperativas e possuem alguns poucos benefícios trabalhistas. Mas não existe nem sombra de um plano de saúde. Não existe o menor reconhecimento financeiro pelos anos trabalhados numa completa insalubridade e periculosidade.  

Oitava: as temperaturas no interior da mina chegam a 40/42 graus. 10 horas trabalhando num lugar desse não há organismo que aguente.

Nona: o salário se calculado por dia aproxima-se na melhor das hipóteses a  algo em torno de 18 a 25 reais. O mundo é muito injusto mesmo. É triste ver que as condições de trabalho pouco mudaram desde a época da colônia.

Décima: O método ainda utilizado não difere muito daqueles praticados no período colonial, tal a precariedade com que milhares de mineiros arriscam suas vidas diariamente na busca pela prata, estanho, zinco e chumbo. “Cerro Rico” é cruel.  

ABAIXO SEGUE UM VÍDEO COM UMA MÚSICA ORIGINALMENTE “QUÉCHUA”  – o vídeo mostra imagens de um casamento “quéchua” – vale a pena conferir.

 

por Joãooooooo

Comentários
  1. Elisângela disse:

    Vi uma reportagem sobre as condições de trabalho nessas minas, fiquei perplexa com as cenas. Pensando num possível sensacionalismo, resolvi pesquisar e encontrei o blog.
    Estou ainda mais chocada com estas crianças que ao invés de crescimento humano enquanto pessoas, vêem na morte lenta, a busca para sua sobrevivência!!!!
    Cadê a OIT (organização internacional do trabalho)? Ou eles nunca souberam desta situação??!!
    Como foi dito, como fica as condições de trabalho humano??? é válida apenas para países desenvolvidos?
    Não sou otimista a pensar que no Brasil não possa existir situações parecidas!!! Mas, o país ainda utilizar desse “inferno” para fomentar o turismo!!!!
    E o que resta ao turista, ver, ficar indignado e sentir-se impotente, sem nada poder fazer para mudar as vidas daquelas pessoas.
    Depois ainda não entendemos a razão do tráfico ser tão forte nequele país!! Certamente condições melhores de trabalho ele ainda consiga oferecer.

  2. Gabriela Vaz disse:

    ME INDIGNA TODO E QUALQUER TRABALHO ESCRAVO E FALTA DE ESCOLHA!

    MERDA ..

    QUE PAÍS? QUE MUNDO?
    CONSEGUE DEITAR A CABEÇA DO TRAVESSEIRO SABENDO DISSO?
    SENDO CONIVENTE OU ATOR DESSA PORRA? ME DIZ?

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